9.11.05

JPP sobre a França

No Abrupto, anteontem:

«Num artigo de hoje do Libération , que se queixa de que o “Estado abandonou os bairros sociais (as “Cités”)”, percebem-se três coisas:

a enorme rede de subsídios e financiamentos estatais típicos do “modelo social europeu”. O artigo cita a crise das acções de alfabetização, financiamentos do Fasild (antigo Fundo de Acção Social), acções de prevenção com adolescentes, programa de empregos-jovem, acções com mulheres, associações subsidiadas (o exemplo é uma intitulada Sable d’Or Mediterranée) que fazem acções de inserção, acolhimento dos recém emigrados, acesso à cultura, teatro de adultos, iniciação ao cinema, vários projectos artísticos e culturais, etc., etc.;

a enorme quantidade de pessoas que trabalha nestes programas, associações, ONGs, que são elas próprias um grupo de pressão para o aumento dos subsídios e o alargamento dos apoios estatais, e que, não é por acaso, aparecem nesta crise como as principais vozes “justificando” a “revolta dos jovens”;

e, por último, o enorme contraste entre o modo europeu de “receber” e integrar os emigrantes envolvendo-os em subsídios e apoios, centrado no estado e no orçamento, hoje naturalmente em crise; e o modo americano que vive acima de tudo do dinamismo da sociedade que lhes dá oportunidades de emprego e ascensão social.»

4 comentários:

Ricardo disse...

Viva,

Dizer neste momento que a integração europeia dos imigrantes falhou tem o mesmo tipo de demagogia inerente que tinha dizer que o modelo americano falhou por causa de Nova Orleões.

Mas começo a ter a certeza que JPP não está bem onde está ... nem em Portugal, nem no PSD nem na Europa. Tudo bem sermos liberais mas comparar a situação americana e europeia desta forma esquemática - como se nos EUA fosse chegar e "ascender" - não me merece mais comentários.

Abraço,

Armando S. Sousa disse...

Por acaso não cliquei para o Abrupto, porque não gosto da maneira que JPP olha para a sociedade no geral, seja a portuguesa seja a de qualquer outro país do mundo. Para mim, pode falar para os peixes!
Nesta revolta nos "banlieu's" o Governo francês deverá questionar a sua política de integração, se se pode chamar política de integração, dos imigrantes.
Se não o fizer e bem, escancará as portas a Jean Marie le Pen.
Um abraço.

Fernando Bravo disse...

ricardo, não me parece que JPP tenha posto a questão de uma forma esquemática. Imagino que ele saiba que as coisas são mais complexas do que isso. Talvez tenha querido salientar a ideia que na Europa entregamos demasiado a responsabilidade do bem-estar ao Estado e que nos EUA essa responsabilidade reside mais no indivíduo. E, sobretudo, que o facto de atirar essa responsabilidade para o Estado leva as sociedades europeias a serem menos dinâmicas - e, portanto, a criarem menos oportunidades.

Para mim esta questão de mais liberalismo social ou mais proteccionismo social (se me permitem as expressões) é uma das questões fundamentais que se coloca a quem hoje reflecte sobre ideologias políticas. Confesso que não tenho certezas. No entanto, parece-me que:

1. Nos Estados Unidos os mecanismos de protecção social são em menor número;
2. A sociedade civil é bem mais dinâmica nos EUA que na maioria dos países europeus;
3. Há em Portugal e na Europa a ideia que o Estado tem de (e pode) resolver todos os problemas sociais e que daí resulta um maior amorfismo da sociedade civil que nos EUA;
4. Há em Portugal (não conheço a situação em França, JPP dá a entender que é igual) inúmeros organismos, associações e empresas que vivem da prestação de serviços de protecção social subsidiados pelo Estado cuja utilidade, nalguns casos, é duvidosa;

Portanto, como disse o armando ésse a propósito da França, penso que o chamado "modelo social europeu" tem de ser questionado. Sobretudo no que toca à integração de imigrantes.

Não tenho grandes certezas, como disse, excepto esta: devemos avaliar os organismos de protecção social (públicos ou privados subsidiados por dinheiros públicos) não pela quantidade nem pelo número de pessoas que deles usufruem mas pelo número de pessoas que deles deixam de necessitar. E como há cada vez mais organismos desses e daí não parece resultar uma grande melhoria da situação social europeia (como o caso francês demonstra), teremos de reflectir se estamos no caminho certo. E, se não estamos, qual o caminho a seguir.

Ricardo disse...

Viva Fernando,

Estamos a criar uma ilusão e não podemos ir a reboque dos acontecimentos. O que se passa em França não deve ser usado a quente para questionar tudo.

Ou será que quando em LA a população de cor destroi inúmeros estabelecimentos devíamos questionar o modelo norte americano e aproximá-lo do europeu? Ou quando inúmeros cidadãos por questões de politiquice não podem votar tem que vir abaixo o sistema eleitoral americano? Ou quando há, nos EUA, um subsídio de desemprego que funciona como um novo modo de escravatura para empresas devemos acabar com os subsídios? Ou até quando não há sistema de saúde universal...

Por isso, Fernando, aceito que muito tenha que ser repensado mas cuidado com as analogias. Discordo que tenhamos que copiar modelos que em nada são melhores ou piores que os nossos...

Abraço,