25.4.06

Sophia

Não sou grande apreciador de poesia, nomeadamente da poesia culturalmente correcta - isto é, venerada pelo establishment cultural português. Acho que muita da poesia mais louvada no nosso país é aquela feita por poetas sem talento excepcional mas com o condão de serem excelentes relações públicas perante esse establishment. A ideia que dão é a de que bastam umas palavras impenetráveis (tipo "Húmus do tempo vertido, flor que dispersa em medida voraz, avenidas de medo no crepúsculo do teu seio") e umas tiradas apropriadas nos salões certos.

Mas depois há aqueles que o establishment não pode ignorar e que eu não posso deixar de admirar. Aqueles cuja poesia é límpida e simples, sem nunca ser banal. Pessoa, Régio, Eugénio ou... Sophia.

Sophia de Mello Breyner Andresen escreveu alguns dos meus poemas preferidos, com palavras breves, despretenciosas e certeiras, directas ao sentimento que eu gostava de saber exprimir de forma tão superior. Deixo apenas alguns curtos exemplos, que este não é um blog de poesia:


Mar

Quando eu morrer voltarei para buscar
os momentos que não vivi junto ao mar.


Ausência
Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua

Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.


As Ondas
As ondas quebravam uma a uma
Eu estava só com a areia e com a espuma
Do mar que cantava só para mim.


E, claro, o poema que me fez escrever este post. O poema que melhor define o 25 de Abril. Já sei que hoje ele aparece em mil e um blogs e sites e jornais, mas não podia deixar de o pôr aqui também:


25 de Abril

Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo.


Bom (resto de) Feriado!

10 comentários:

Fernando Bravo disse...

E ainda este, dedicado a Salgueiro Maia:

"Aquele que na hora da vitória
Respeitou o vencido

Aquele que deu tudo e não pediu a paga

Aquele que na hora da ganância
Perdeu o apetite

Aquele que amou os outros e por isso
Não colaborou com a sua ignorância ou vício

Aquele que foi «Fiel à palavra dada à ideia tida»

Como antes dele mas também por ele
Pessoa disse"

via Poesia Portuguesa

Ni disse...

Excelente post!

Perfeito - atrevo-me a dizer!

Conjugas a crítica , deliciosamente embrulhada em humor, («A ideia que dão é a de que bastam umas palavras impenetráveis - tipo "Húmus do tempo vertido, flor que dispersa em medida voraz, avenidas de medo no crepúsculo do teu seio" - ) com a 'escolha de Sophia' - passo o plágio não propositado ... ou talvez sim... -

Os excertos que escolheste desta Mulher Poesia são magistrais. Palavras simples, que adquirem o estatuto de versos... porque as palvras se abraçam com a mesma simplicidade com que se respira.
Porque poesia não é a arte de juntar as palavras inacessíveis e rebuscadas... não é o poder sobre a palavra e quem a lê e não descodifica. É o 'in- verso'. Poesia, a verdadeira, é a que nos faz arrepiar a pele, a que nos lê, nos espelha e nos surpreende. E nos fica na mente, como travo a limão e canela na boca...
... e odor de 'sempre'...

Abraço

Ni*

mixtu disse...

Sophia... a eterna Sophia, excelente ensaio...
cumprimentos monárquicos de 2007 para 2006 ;)

Fernando Bravo disse...

ni, estamos em sintonia, como já desconfiava pelo que escreves no teu blog. Também não vejo a poesia como um ajuntamento de palavras e sentidos inacessíveis. Interessante a maneira como descreveste a poesia verdadeira como aquela que nos lê. Ou que nos faz sentir lidos, digo eu. Bem visto.

mixtu, essa dos cumprimentos monárquicos continua a intrigar-me!

Anónimo disse...

Gostei pra bué...............valeu a pena ter aqui entrado para te agradecer a visita. Óptimo dia.....bjks da Intemporal.blogs.sapo.pt

Fernando Bravo disse...

Olá intemporal, ainda bem que gostaste. Volta sempre, bjs!

A disse...

Sou obrigada a concordar por inteiro contigo.
Existe tanto pretenciosismo neste país...e é vê-los de barrete psudo-intelectual nos tais salões com uma "Bíblia" debaixo do braço...

Muito bom... Saudades de Sophia... e de Eugénio de Andrade... e de tantos...

Fernando Bravo disse...

a, o pior é quando começam a discorrer... :(
Valham-nos os outros, os que valem a pena!

Poesia Portuguesa disse...

Vinha aqui deixar uma palavra a esta Grande Senhora da Poesia, e fiquei realmente comovida (é o termo) por encontrar aqui uma referência ao poema a Salgueiro Maia, da minha "Poesia"..

... e releio palavras que me acompanharão sempre...

"...Quando eu morrer voltarei para buscar
os momentos que não vivi junto ao mar."
... um dia vou querer esta referência na minha lápide...

Um abraço e grata por aqui (me) teres partilhado ;)

Fernando Bravo disse...

poesia portuguesa, eu é que agradeço teres-me dado a conhecer esse poema sobre Salgueiro Maia! Abraço