8.7.05

Al-Qaeda

Para a Al-Qaeda, só existe um código de vida. O cumprimento escrupuloso, frase-a-frase, palavra-a-palavra, do Corão. O texto fundamental dos muçulmanos não pode ser interpretado de outra forma que não a literal. Não pode ser interpretado à luz da época porque Maomé não se engana e, portanto, as suas palavras não foram produto do tempo mas guião para todo o sempre. Não pode ser interpretado à luz de uma Cultura porque Maomé não se engana e, portanto, as suas palavras não foram produto de uma Cultura mas da vontade divina. Não há interpretações, actualizações, compromissos, margens, avanços. O Corão é a verdade e o caminho. A única verdade e o único caminho. Por isso a Al-Qaeda só admite um tipo de sociedade, a sociedade taliban.

Consequentemente, para a Al-Qaeda só existem dois tipos de pessoas: fiéis e infiéis. Os fiéis devem seguir à risca os mandamentos do Profeta. Os infiéis, de qualquer forma ou feitio, não merecem qualquer respeito ou contemplação. Só lhes resta converterem-se. Enquanto não o fizerem, a sua vida não vale nada. Não interessa se são militares ou civis, governantes ou governados, crianças ou velhos. A sua vida não vale nada.

Isto é demasiado estranho para nós, ocidentais, para quem os direitos humanos fundamentais (e o direito à vida bem lá no cimo) se sobrepõem a convicções políticas, religiosas ou quaisquer outras. Porque para nós a condição humana sobrepõe-se à opção humana, seja ela opção religiosa, política ou outra.

Mas não para a Al-Qaeda. A opção religiosa não é na verdade uma opção, mas a única realidade possível. Não há alternativa. Portanto, há que combater os infiéis, as suas ideias, o seu modelo de sociedade. E convém lembrar que o seu combate não é só com os infiéis. É também com os muçulmanos que não seguem à risca o Corão, que não defendem uma sociedade taliban. Portanto, a Al-Qaeda não descansará enquanto todas as sociedades do mundo não forem sociedades taliban.

Como é óbvio, a Al-Qaeda nunca vencerá. Nem no mundo islâmico, nem no resto do mundo. O ser humano nunca aceitará um modelo único de sociedade. Cada vez suspeitamos mais de verdades absolutas. Identificamos constantemente as vantagens da diversidade. Se a Al-Qaeda representa algo em termos civilizacionais, é o passado. Que queremos bem longínquo.

Portanto, não temos alternativa. Temos que combater o totalitarismo islâmico (sim, porque se trata de um totalitarismo, como o fascismo ou o comunismo). Em todas as frentes. Na militar, claro. Mas sobretudo na ideológica. Teremos mais sucesso a combater a Al-Qaeda nas mesquitas por esse mundo fora do que em qualquer campo militar. Temos que apoiar, animar e fomentar os islamistas moderados, que aceitam a diferença, que valorizam a paz, que respeitam a vida. Para que a vida vença.

4 comentários:

Anónimo disse...

Obviamente que ninguém numa sociedade ocidental (ou ocidentalizada... é ocidental julgarmos mulheres por abortamentos?) admite, nem tão pouco entende,o modo de vida dos seguidores profundos do Islão (qq interpretação que se dê - também o cristianismo tem várias vertentes, não?).
Entenderão eles o nosso modo de vida? Não acharão eles que o Ocidente faz terrorismo (de cara descoberta) todos os dias nas suas terras?
Não se pode esquecer que em qualquer profissão/grupo/doutrina há os bons e os maus... e os assim assim (:-)).
Ainda alguém se lembra dos crimes de guerra lecados a cabo por marines?
God save The Queen

Fernando Bravo disse...

Acho que a questão não é se entendem o nosso modo de vida. Só aceitam o modo de vida taliban, por ser o único aceite pelo Corão (no entendimento deles). Por isso, para os terroristas, o nosso modo de vida é sempre desprezível - e merece o ataque deles.

Diogo Rocha Santos disse...

Isso de entender modos de vida é muito engraçado.
Curiosamente, vamos de férias a qualquer país muçulmano e descalçamo-nos, tapamos a cara das mulheres, não levamos a mal ofertas de camelos pela nossa mulher, etc... 'Em Roma sê romano' é levado à letra, não vão os meninos ficar aborrecidos por não se respeitar o corão!
Mas quando o movimento humano acontece em sentido contrário, já o povo evoluído do ocidente considera um atentado à liberdade das minorias não deixar as mulheres usar a burka, não os deixar parar tudo para rezar virados para Meca, não os deixar ter os seus feriados, não os deixar ter a vida deles num país diferente! O caso muda de figura e passamos a ser o que quisermos em Roma (se alguém se lembrar de um provérbio que se adapte, força!).
Não a posso ter dessa maneira, mas a minha posição pessoal tende a fugir, nas alturas em que não a quero controlar, extremamente radical face a indivíduos que ainda não perceberam que estão atrasados no tempo! Não é a cultura ou as cidades, os actos ou as palavras... é todo o pensamento!!!
A conservadora Igreja Católica arrepende-se de toda a história das Cruzadas e Inquisição. Factos de há muitos, muitos anos...
Será que vamos ter que esperar um milénio para que o povo muçulmano se aperceba dos erros que comete?

Fernando Bravo disse...

Diogo, percebo e concordo com o teu ponto de vista. Só na última frase é que discordo. Onde tens "povo muçulmano" devias pôr "terroristas muçulmanos" ou "extremistas muçulmanos" (se calhar era essa a tua intenção, acredito). Temos ouvido muitos muçulmanos a discordarem totalmente do terrorismo da Al-Qaeda. Não pode pagar o justo pelo pecador. Abraço!