Para a Al-Qaeda, só existe um código de vida. O cumprimento escrupuloso, frase-a-frase, palavra-a-palavra, do Corão. O texto fundamental dos muçulmanos não pode ser interpretado de outra forma que não a literal. Não pode ser interpretado à luz da época porque Maomé não se engana e, portanto, as suas palavras não foram produto do tempo mas guião para todo o sempre. Não pode ser interpretado à luz de uma Cultura porque Maomé não se engana e, portanto, as suas palavras não foram produto de uma Cultura mas da vontade divina. Não há interpretações, actualizações, compromissos, margens, avanços. O Corão é a verdade e o caminho. A única verdade e o único caminho. Por isso a Al-Qaeda só admite um tipo de sociedade, a sociedade taliban.
Consequentemente, para a Al-Qaeda só existem dois tipos de pessoas: fiéis e infiéis. Os fiéis devem seguir à risca os mandamentos do Profeta. Os infiéis, de qualquer forma ou feitio, não merecem qualquer respeito ou contemplação. Só lhes resta converterem-se. Enquanto não o fizerem, a sua vida não vale nada. Não interessa se são militares ou civis, governantes ou governados, crianças ou velhos. A sua vida não vale nada.
Isto é demasiado estranho para nós, ocidentais, para quem os direitos humanos fundamentais (e o direito à vida bem lá no cimo) se sobrepõem a convicções políticas, religiosas ou quaisquer outras. Porque para nós a condição humana sobrepõe-se à opção humana, seja ela opção religiosa, política ou outra.
Mas não para a Al-Qaeda. A opção religiosa não é na verdade uma opção, mas a única realidade possível. Não há alternativa. Portanto, há que combater os infiéis, as suas ideias, o seu modelo de sociedade. E convém lembrar que o seu combate não é só com os infiéis. É também com os muçulmanos que não seguem à risca o Corão, que não defendem uma sociedade taliban. Portanto, a Al-Qaeda não descansará enquanto todas as sociedades do mundo não forem sociedades taliban.
Como é óbvio, a Al-Qaeda nunca vencerá. Nem no mundo islâmico, nem no resto do mundo. O ser humano nunca aceitará um modelo único de sociedade. Cada vez suspeitamos mais de verdades absolutas. Identificamos constantemente as vantagens da diversidade. Se a Al-Qaeda representa algo em termos civilizacionais, é o passado. Que queremos bem longínquo.
Portanto, não temos alternativa. Temos que combater o totalitarismo islâmico (sim, porque se trata de um totalitarismo, como o fascismo ou o comunismo). Em todas as frentes. Na militar, claro. Mas sobretudo na ideológica. Teremos mais sucesso a combater a Al-Qaeda nas mesquitas por esse mundo fora do que em qualquer campo militar. Temos que apoiar, animar e fomentar os islamistas moderados, que aceitam a diferença, que valorizam a paz, que respeitam a vida. Para que a vida vença.