27.11.12

Veríssimo

Na revista da TAP, “Up”, uma interessante entrevista a duas vozes: Luís Fernando Veríssimo e Miguel Sousa Tavares.

Luís Fernando Veríssimo é filho do escritor Érico Veríssimo e, de mérito próprio, um cronista pleno de êxito. Conheci o seu trabalho porque há uns anos o Expresso publicava crónicas suas todos os Sábados.
Eram crónicas de pequenas histórias, apontamentos, impressões, retratos do quotidiano apanhados na rede da perspicácia do autor. Nada tinham de pretensiosismo – mas eram brilhantes. Nada tinham de vã exibição de construção literária – mas eram muitíssimo bem escritas. Nada tinham de arrogância – mas exibiam uma ironia cirúrgica, que revelava o interior humano das histórias para logo o cobrir de um humor único, que o matizava. Uma maravilha.

Há uns tempos, no entanto, vi-o num programa de televisão, de visita a Portugal. E descobri um escritor tímido, acanhado mesmo. O meu espanto foi total. Onde estavam as tiradas desarmantes? Onde estavam as observações inteligentes? Onde estava a ironia mortífera? Onde estava o humor certeiro e divertidíssimo?

A resposta era só uma: estava tudo escondido. Lá, seguramente, mas escondido.

Este é o drama do tímido inteligente: em privado, com tempo e recato, a sua genialidade derrota inapelavelmente a timidez. Mas em público, sob a pressão da interacção social e da ditadura do imediato, a sua timidez oprime a genialidade.

O mesmo nesta entrevista: a propósito dos Portugueses e dos Brasileiros, da literatura ou da descoberta pessoal do país do outro, Miguel Sousa Tavares revela a sua inteligência e wit, enquanto Luís Fernando Veríssimo se perde poucos furos acima da banalidade. Fossem as respostas por e-mail e outro galo cantaria. (Quase) literalmente.

13.9.12

Entre a acefalia e a bicefalia: uma viagem ao Bloco de Esquerda (segurem-se bem!)

Já sabemos que a Esquerda é arrogante: considera-se mais solidária, mais defensora dos desfavorecidos, mais justa, mais desinteressada, mais pensadora, mais cultural – e mais humilde, claro está. A Direita, obviamente, é o oposto: move-se pelo lucro, pelos interesses, pelo poder, pelos capitalistas, etc., etc., etc. Corolário desta arrogância de Esquerda: quando faltam os argumentos, apelida-se a Direita de fascista, nem que seja completamente a despropósito.

Também já sabemos que quanto mais à Esquerda, maior a arrogância. Basta ouvir um discurso de Louçã para percebermos que aquele homem é senhor da verdade do mundo e, claro está, que os oponentes são a escumalha da Terra. Por isso soa como um pregador puritano que nos tenta fulminar com a sua mensagem: o Bloco detém a Verdade Pura, a Direita é o desvio, a personificação do Mal.

Obviamente, segundo a propaganda do Bloco a sua ideia de Democracia é a mais pura e a sua ideia de organização interna é a única que assegura verdadeira democraticidade no seio de um movimento político.

Exploremos um pouco mais estas ideias propagandeadas.

O Bloco defende realmente uma democracia diferente. Apelida o sistema democrático representativo vigente de “falsa democracia” ou de “democracia burguesa”. Em alternativa, propõe uma democracia “directa”. Esta consiste em níveis sucessivos de assembleias supostamente abertas à participação de todos, discutindo tudo, decidindo colectivamente, de preferência por consenso.

Por isso se excitaram tanto com as Assembleias Populares que começaram a surgir em Espanha e com o movimento Occupy Wall Street. Tentaram replicar a ideia por cá, com o (in)sucesso que conhecemos. Aquele aglomerado de pessoas e piolhos que se reunia na Praça da Batalha, no Porto, com frases tão líricas quanto vazias, deveria supostamente galvanizar o Povo do Porto, levá-lo a discutir o futuro da cidade e do mundo e encostar às cordas a Democracia Representativa. Em vez disso, como sabemos, não conseguiu a adesão de ninguém a não ser deles próprios e de uns jovens alemães e espanhóis que viajam pela Europa a pregar as maravilhas da democracia directa a troco de alojamento e comida grátis – turismo low-cost político, uma novidade.

A verdade é que o Povo do Porto ignorou olimpicamente a Assembleia Popular da Batalha, como o Povo de Lisboa ignorou a Assembleia do Rossio e o Povo de Nova Iorque a Assembleia do Occupy.

Como reagiu o Bloco?

Primeiro, com a habitual vitimização. A culpa, obviamente, é do sistema. As pessoas andam enganadas pela Comunicação Social, temerosas de afrontar os interesses (a vitimização face a uma suposta repressão terrível dos poderes intalados é outra constante da Extrema-Esquerda), adormecidas pela descrença na possibilidade de mudança, perseguidas à bastonada pela polícia (no Chiado, depois de insultarem e atirarem objectos a polícias que nada lhes tinham feito, lá veio a polícia de intervenção dar umas bastonadas para contentamento da sua teoria da forte repressão policial).

Segundo, com a certeza que uma correcta “consciencialização” do Povo irá mudar tudo, nascendo uma nova Democracia (haja paciência para esta gente, nunca aprendem nem desistem).

Para os bloquistas, não podem é restar dúvidas que esta forma de democracia “directa”, “popular” e “colectivista/consensual” é a única forma de Democracia verdadeira, a única forma de Democracia pura.

Muito interessante é a transposição destes conceitos de Democracia para o seu funcionamento interno enquanto movimento político.

Seria de imaginar que o Bloco teria uma organização interna “directa”, “popular” e “colectivista/consensual”, certo?

Eles tentaram, mas falharam.

Numa primeira fase, a Mesa Nacional era o órgão máximo do movimento. Não havia nenhum líder e todas as decisões seriam tomadas por esse órgão colectivo.

Era a acefalia (ausência de cabeça ou líder) a que me refiro no título deste artigo.

De facto, ao falar em acefalia bloquista não queria insinuar que a massa cinzenta não abunda para aqueles lados (se bem que…). Queria apenas aludir a esta ideia purista de ausência de líder, de decisões colectivas/consensuais, de poder partilhado por todos, que supostamente está no DNA do Bloco e estaria nesta primeira liderança colectiva.

Claramente esta ideia provém das correntes trotsquistas dentro do Bloco e é herdeira da crítica de Trotsky à ditadura do regime soviético de Estaline. Para Trotsky, um dos principais desvios do comunismo soviético face ao socialismo “puro” era a natureza ditatorial do regime – embora nunca se tenha queixado da mesma enquanto esteve no topo do poder, no tempo de Lenine, mas enfim...

Voltando à evolução do tipo de liderança no Bloco: obviamente esta organização acéfala era muito bonita mas pouco ou nada prática. Imagino que o tempo de resposta nem sempre seria o melhor.

Passaram então a uma segunda fase, em que entenderam útil eleger um líder. Perdão, um Coordenador! A designação não era casual: o Bloco nunca poderia ter um líder ou presidente. Mesmo um secretário-geral (ou qualquer outra designação que evidenciasse um “primus inter pares”) seria uma traição ao espírito colectivista. Abrenúncio!: Louçã seria um mero Coordenador, um instrumento para agilizar a implementação das decisões colectivas.

Todos sabemos que Louçã foi bem mais do que isso, mas o manto moral tinha de ser preservado.

Entramos agora na terceira fase, a da sucessão de Louçã. E este, apesar de todas as grandiloquentes proclamações colectivistas, não resistiu à tentação muito pouco democrática de escolher sucessor, qual monarca árabe. Então e a discussão colectiva? Então e a decisão por consenso? Então e a superioridade democrática face aos outros partidos? Era tudo um castelo de ilusões em vias de ruir estrondosamente.

De facto, inicialmente Louçã escolheu João Semedo. E houve quem não gostasse, nomeadamente os ex-UDP. Só depois dos ex-UDP recusarem a escolha de João Semedo é que começaram a procurar uma outra solução.

E que solução foi essa? A bicefalia! A liderança passará a ser detida por João Semedo e Catarina Martins.

(Uma curiosidade: recentemente eram os ex-PSR – Louçã e companhia limitada –, supostamente trotsquistas e, portanto, colectivistas, que queriam uma solução de liderança individual com João Semedo; e eram os ex-UDP – Fazenda y sus muchachos –, supostamente maoístas e, portanto, menos dados a lirismos de liderança colectiva, que queriam uma solução colectiva. Ainda agora se vê que são os ex-PSR a querer a solução bicéfala e os ex-UDP a querer a solução colectiva, donde se vê também que as diferenças têm mais a ver com personalidades e nomes do que com elevados princípios morais e democráticos. Isto vai começar a aquecer para aqueles lados!)

Esta solução bicéfala tem muitos aspectos curiosos:

Desde logo, há uma clara indigitação dos novos líderes pelo Querido Líder cessante, muito longe da democracia interna de qualidade supostamente superior que tanto apregoam. As eleições directas do PSD, do PS e do CDS são claramente mais democráticas que esta solução imposta de cima para baixo.

Depois, é claramente uma solução de compromisso entre dirigentes de topo desavindos, mais uma vez de cima pra baixo, alienando a totalidade dos militantes que se vêem perante um facto consumado.

De facto, eu entenderia que continuasse a existir apenas um líder ou que se voltasse a uma solução colectiva. O que não entendo é a solução bicéfala.

De facto, porquê dois líderes?

Se fosse só um seria menos democrático? Isso significa que a liderança de Louçã foi pouco democrática?

Quando é só um, há tendência para o autoritarismo? Isso significa que a liderança de Louçã foi autoritária? A solução de um só líder não resultou? Isso significa que a liderança de Louçã falhou?

E porquê dois e não três ou quatro ou vinte? O que torna a liderança bicéfala melhor que uma liderança tricéfala, quadricéfala, multicéfala?

Para revestir esta solução com um manto de elevados princípios morais e políticos, os proponentes desta solução apelidaram-na de “paritária”. O Bloco poderia assim manter a sua arrogância política: estaria de novo na vanguarda política, sendo o primeiro partido político a ter uma liderança “paritária”. Que modernos!

Mas, mais uma vez, porquê paritária em género sexual e não paritária em origem geográfica, alguém do interior e alguém do litoral? Ou paritária em orientação sexual, alguém hetero e alguém homo? Ou paritária em idade? As possibilidades de combinação paritária são infinitas!

E porque estão a excluir os transsexuais e transgenderistas? Logo o Bloco, que tanta atenção dedica a estas questões de géneros!

A verdade é que o número não revela a qualidade democrática da liderança. Não se é mais democrático por se ter dois em vez de um.

De facto, um líder (individual) pode respeitar integralmente as regras democráticas, executar apenas o programa do mandato que lhe foi conferido e consultar periodicamente os seus eleitores. E, do mesmo modo, uma liderança grupal pode mandar sem ouvir ninguém fora desse grupo restrito nem atender ao interesse geral – chama-se a isso Oligarquia e já existe desde a Grécia Antiga.

Donde que podem tentar cobrir esta solução de liderança com mantos de democracia avançada, paritária, progressista, o que quiserem. A verdade é esta: é uma solução de recurso, imposta de cima para baixo, que nada tem de democrática.

O manto caiu: falam em democracia “directa”, mas na verdade querem é que seja controlável; falam em democracia “popular”, mas na verdade querem é que seja ditada pelos seus próceres; e falam em democracia “colectivista/consensual”, mas na verdade querem é que seja manipulada para os seus objectivos. O autoritarismo sempre latente na extrema-esquerda está a vir ao de cima.

Obviamente, nem todos no Bloco estão a aceitar isto passivamente.

Assim, terminamos esta viagem ao Bloco com um vislumbre do destino a que não poderá escapar: o Bloco vai explodir, por entre diferenças insanáveis de estratégia por motivos de elevadíssima moral política que conduzirão a conflitos tristes que estilhaçarão o Bloco em mil pedaços. Ok, vá, talvez não em mil mas pelo menos em seis ou sete.

Numa coisa concordo com eles: o futuro será melhor. Só que não será deles – felizmente!

7.7.11

Livres

Neste momento, em Portugal, precisamos que todos os homens e mulheres Livres dêem um passo em frente. Ninguém se pode demitir da responsabilidade actual para com o nosso país. Precisamos que as decisões difíceis sejam apoiadas e, mesmo, exigidas por todos aqueles que sabem em que situação estamos e que não devem obediência a nenhum grupo de interesses.

Precisamos de todos os que são livres dos partidos, dos sindicatos, dos aventais, da obra, dos grupos económicos, dos grupos mediáticos, dos grupos religiosos, dos grupos profissionais, dos grupos académicos, da função pública, das agências de rating, dos especuladores, dos monopólios, dos oligopólios protegidos, dos oligopólios escondidos, dos lobbies e de todo e qualquer grupo de interesse que para aí exista.

Mas como assim seríamos poucos, precisamos também dos que são livres nos partidos, nos sindicatos, nos aventais, na obra, nos grupos económicos, nos grupos mediáticos, nos grupos religiosos, nos grupos profissionais, nos grupos académicos, na função pública, nas agências de rating, nos especuladores, nos monopólios, nos oligopólios protegidos, nos oligopólios escondidos, nos lobbies e em todo e qualquer grupo de interesse que para aí exista.

Precisamos de ouvir a sua voz na sociedade cada vez que um grupo de interesses procure manter o seu benefício em detrimento do bem comum.

Precisamos de ouvir a sua voz na sociedade cada vez que um grupo de interesses lance a agitação e tente o descrédito.

Precisamos de ouvir a sua voz na sociedade se o novo Governo tardar no inadiável ou tergiversar no caminho.

Mas também precisamos de ouvir a sua voz dentro do grupo de interesse, quando este procure manter o seu benefício em detrimento do bem comum.

Mas também precisamos de ouvir a sua voz dentro do grupo de interesse, quando este procure lançar a agitação e o descrédito.

Mas também precisamos de ouvir a sua voz dentro do Governo e dos partidos que o suportam, se estes tardarem no inadiável ou tergiversarem no caminho.

Porque se os seres livres deste país não o fizerem, de forma bem audível, estamos perdidos.

Há que apoiar a salvação de Portugal e há que exigir a salvação de Portugal. Sejamos livres para isso.

2.3.11

The Third Man, autobiografia de Peter Mandelson




Para quem não o conhece, Peter Mandelson foi uma eminência parda do New Labour (nem sempre muito parda, diga-se). Foi o "spin doctor" de serviço, o manobrador de bastidores, o sargento a pôr discretamente as tropas na ordem.



O título da sua autobiografia, "The Third Man", remete para tudo isso: era o terceiro homem, depois de Tony Blair e de Gordon Brown.



Mandelson acompanhou os dois desde cedo, muito antes de Blair chegar à liderança do partido. Acompanhou o percurso dos dois amigos, viu Brown a ser apontado como futuro líder durante anos e anos, espantou-se com a ascensão imparável de Blair na recta final. Tentou acalmar um frustradíssimo Brown e servir de ponte entre ele e Blair. Mas Brown nunca deixou de desconfiar que Mandelson o traiu em favor de Blair, o que ele nega veementemente.

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Com a chegada do Novo Trabalhismo ao poder, assumiu cargos governamentais de apoio próximo ao Primeiro-Ministro mas de nebulosa definição. Blair pedia-lhe simplesmente que fosse Peter, isto é, que participasse na definição da comunicação do Governo, que tratasse dos assuntos quentes, que fechasse as negociações complicadas, mas sem um cargo executivo típico. Que manobrasse nos bastidores movendo energias para atingir objectivos de outros e não às claras numa função ministerial mais tradicional.
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Este é um dos pontos mais interessantes de todo o livro. Perpassa aí uma frustração por não se conseguir libertar da imagem de homem do backstage nem, consequentemente, conseguir ser visto seriamente como estratega político ou como implementador de políticas. Nunca conseguiu libertar-se da imagem de mestre em politics, mas não em policies.



Numa opinião muito pessoal, não fica nada claro que essa imagem seja injusta. De facto, ao longo de toda a obra, Mandelson dedica muito mais tempo às manobras políticas que às discussões ideológicas, muito mais tempo às lutas internas do partido que às reformas estruturais do Governo, muito mais tempo ao seu relacionamento com outros protagonistas políticos da época do que às suas estratégias governativas, muito mais tempo ao sound-byte que ao pensamento estruturado. Mesmo o seu grande êxito político, a sua participação no processo de paz na Irlanda, foi uma participação mais de negociador fora dos holofotes mediáticos do que de implementador de políticas públicas.



Portanto, queixa-se de ser visto injustamente como manobrador-mor mas acaba por dedicar a maior parte das páginas a descrever como foi manobrador-mor.



Note-se que este qualificativo não é necessariamente negativo. Nessa tarefa ele seria provavelmente brilhante - e não é uma tarefa fácil. Provavelmente livrou Blair de muitas dores de cabeça. Deu um impulso fundamental às negociações no Ulster. Foi o único que conseguiu travar e, mesmo, inverter um pouco as tendências de descida de Gordon Brown primeiro-ministro.



Mas fica clara a amargura que sentiu por não ser reconhecido como um estratega político, um ministro competente, um homem de Estado.



O outro aspecto interessante deste livro é a perspectiva próxima, muito próxima, do que foi o New Labour e, nomeadamente, das relações nos círculos políticos restritos dos dois primeiros-ministros. Podemos acompanhar toda a História do trabalhismo inglês da viragem do século, conhecer os protagonistas, dissecar as rivalidades e as lutas internas, conhecer o funcionamento dos governos de então, perceber melhor o fim de Blair e de Brown.



Pelo meio, várias dicas sobre como sobreviver na Política mediatizada actual. Um bom exemplo? "Nunca ir falar com os jornalistas sem ter uma boa história preparada para lhes dar".



A ler, decididamente.




14.12.10

Carlucci vs. Kissinger

Portugal esteve poucas vezes sob os olhares do mundo. Devemos ter despertado algum interesse na Europa e no Norte de África quando tentávamos empurrar os mouros d'aquém mar para além mar, acrescentámos o olhar dos indianos e dos árabes quando desviámos a rota das especiarias para o Cabo da Boa Esperança e concentrámos a atenção (por uns 3 ou 4 dias) dos impérios de há 100 anos quando assassinámos brutalmente el-Rei e o Príncipe herdeiro.
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E, claro, tivemos o PREC. O triângulo inamoroso que foi a luta entre comunistas, esquerdistas radicais e democratas pró-ocidentais pelo futuro de Portugal viria a apaixonar e preocupar o mundo político de então.
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Os Estados Unidos, obviamente, acompanhavam de perto a situação. Tudo o que menos queriam era um regime comunista na Europa Ocidental, que eventualmente contagiasse as tentativas espanhola e grega de transição para a democracia e ameaçasse pressionar as democracias de Itália e França, que tinham fortes partidos comunistas. Os EUA pura e simplesmente não podiam dar-se ao luxo de Portugal ser para a Europa do Sul o que Cuba fora para a América Latina. Este era o grande receio do Secretário de Estado Kissinger.
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Por isso, quando a revolução portuguesa começou a acelerar, trocaram de Embaixador, indo buscar Frank Carlucci. Carlucci tinha duas vantagens: era um diplomata inteligente, astuto e experiente em revoluções (e, provavelmente, em colaborações estreitas com a CIA); e era amigo pessoal de Donald Rumsfeld (sim, esse mesmo), que na altura era Chefe do Gabinete do Presidente Gerald Ford. Este último pormenor viria a ser crucial.
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Kissinger tinha uma visão mais distante. Se Portugal era importante, não era propriamente a única coisa na cabeça dele. Guerra fria, Vietname, ameaça nuclear, tudo estava em cima da mesa. Além disso, Kissinger era um académico muito conhecedor da história da diplomacia mundial, que portanto tinha alguma tendência para ver a situação portuguesa à luz da história da expansão comunista recente e das teorias político-diplomáticas que acreditava explicarem a sucessão dos acontecimentos.
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Carlucci estava no terreno e era um homem "do terreno". Sabia os nomes dos protagonistas, estava bem informado, geria bem as relações com os democratas pró-ocidentais (PS, PSD e CDS, basicamente). Sabia que a situação em Portugal era complexa mas que provavelmente não iria descambar para o comunismo, se as coisas fossem bem geridas.
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Para Kissinger, isto era insuficiente. Para ele, o Embaixador deveria ser mais duro e conseguir a clara expulsão dos comunistas do poder em Portugal. Não gerir a situação, intervir na situação. Quando isso se revelou impossível, Kissinger adoptou a tese da "vacina". Portugal parecia um caso perdido que ou se encaminhava para o comunismo ou para um regime de ditadura esquerdista utópica, porventura não-alinhada. Portanto deveria ser marginalizado, expulso da Nato, abandonado financeiramente. Ao tornar-se um país pobre, periférico e isolado, Portugal seria a vacina contra o comunismo no resto da Europa do Sul.
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Carlucci considerava Portugal tudo menos perdido. Colocava os excessos revolucionários em perspectiva e acreditava que a maioria da população estava contra os lunáticos do PREC.
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Foi-se assim desenvolvendo um confronto entre Carlucci e Kissinger, que é o cerne deste livro de Bernardino Gomes e Tiago Moreira de Sá.
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Kissinger queria retirar o apoio a Portugal, tirá-lo da NATO, remetê-lo ao isolamento. Carlucci queria que se apoiassem veementemente os esforços democratizadores e enfrentou frontalmente... o seu chefe. Claro que tinha as costas quentes, i.e., o acesso directo a Rumsfeld e, portanto, ao Presidente.
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E assim o livro leva-nos a uma história de lutas políticas, manobras diplomáticas, chefias contornadas e conversas duras, entre Lisboa e Washington. Está extremamente bem documentado, resultando numa investigação académica exaustiva, de leitura agradável e cativante.
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A não perder.
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28.11.10

JSD

Estou no Congresso da JSD. Tenho 35 anos e só aqui estou (como Convidado) porque a minha mulher é Delegada ao Congresso. Como ela pensa pela sua cabeça, como as eleições para os órgãos nacionais são daqui a poucas horas, como já todos terão decidido o seu sentido de voto e como não penso que a minha opinião influencie quem quer que seja na JSD, posso escrever aqui o que quiser.
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Posso por isso dar a minha opinião livre. Ouvi muito neste Congresso e, creio, ouvi os principais oradores. Ouvi intervenções de qualidade e outras nem tanto. Ouvi ambos os candidatos. Com segurança, posso dizer que espero que o Duarte Marques seja eleito Presidente da JSD. Pela sua preparação, capacidade de liderança, empenho e dinamismo, a JSD sairá a ganhar por muitos anos.
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Boa sorte, Duarte!

29.10.10

Caros Governantes Socialistas:

Não digam que não foram avisados. Não digam que a culpa é da crise financeira mundial. Não digam que a Oposição tem de ser responsável, como se os Governos socialistas o tivessem sido em 12 dos últimos 15 anos.
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Este alerta foi feito a 16 de Dezembro de 2000, pelo então deputado Rui Rio (que exactamente um ano depois seria eleito Presidente da C. M. Porto, mas na altura nem candidato a candidato era - pelo menos publicamente), no primeiro evento político que organizei. Nesse ano de 2000 a crise ainda não tinha chegado ao bolso dos Portugueses (começaria a fazer-se sentir no ano seguinte), Guterres, Sócrates e Cravinho deliravam com as auto-estradas de portagem virtual (como então se chamava às SCUTs) e parecia que tudo se podia comprar a crédito, do frigorífico às férias, passando pela casa e pelas auto-estradas. Depois... depois logo se veria. E viu-se, e vê-se.
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Este diagnóstico foi feito há dias e é em tudo semelhante.
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Não venham agora dizer que o PSD não avisou, que o PS não podia imaginar, que o mundo mudou em três semanas, que os políticos são todos iguais. Não são. E hoje temos de mudar rapidamente de Governo, porque os socialistas claramente não souberam gerir o país nos 12 anos dos últimos 15 em que estiveram à frente do Governo do país.
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Mudemos!
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22.10.10

Porque se calam os jornalistas?

Serei o único a achar que os jornalistas não fazem perguntas verdadeiramente difíceis, daquelas de entalar, a Teixeira dos Santos e a Sócrates?

Que alguém os devia obrigar a deixar de pôr as culpas nos mercados, nas agências de rating, no mundo-que-mudou-em-15-dias, na Grécia, na Irlanda, na Espanha, em Wall Street e no diabo a quatro?

Que deviam indignar-se quando os socialistas apelam ao sentido de responsabilidade da Oposição, quando eles são os mais irresponsáveis?

Que deviam perguntar porque falharam o PEC I e o PEC II, sendo nós o único país europeu em dificuldades financeiras a ver crescer a despesa, incluindo a corrente e mesmo não contando com os juros da dívida?

Que deviam perguntar incisivamente porque devemos acreditar que desta vez é que é, que desta vez é que vão controlar as contas públicas?

Serei o único a achar isto?

Ou sentem-se todos intimidados? O caso Manuela Moura Guedes terá sido, afinal, um aviso? "Quem se mete com o PS, leva"? É isso?

25.9.10

The spending brother

Dois irmãos concorriam à liderança do Labour Party.

David Miliband ganhou a maioria dos votos dos militantes e dos deputados, só que os sindicatos preferiram Ed Miliband e isso, no complexo sistema eleitoral do Partido Trabalhista, fez a diferença. Conjugados os três tipos de votos, Ed Miliband ganhou por uma diferença de pouco mais de 1%.

Agora está nas mãos dos sindicatos, que são dos mais retrógrados da Europa. Culpam os «ricos» de tudo e mais alguma coisa. Sonham ainda com a colectivização dos meios de produção. São os velhos defensores do “tax-and-spend”: aumentar os impostos para criar mais um subsídio, mais uma benesse.

Essa tradição “Old Labour” manteve o partido fora do governo durante quase 20 anos e, durante décadas, impediu-o de ganhar duas eleições seguidas (até surgir Tony Blair e o seu “New Labour” centrista e moderado).

São retrógados, estão errados e longe da “Middle England”. Cameron pode dormir descansado.
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16.9.10

Ao ouvir a notícia que Portugal se endivida ao ritmo de 2,5 milhões de euros por hora...

... lembrei-me deste trecho do 1º discurso político de Sá Carneiro (1969):

"[...] Por muito que se tenha educado no descrédito da política, é-se forçado a reconhecer que, quando se começa a tomar em profundidade consciência da nossa própria existência pessoal e das realidades que nos cercam, somos constantemente conduzidos a ela [à política].

Desde a educação e futuro dos nossos filhos às nossas próprias condições de trabalho e de vida, desde a liberdade de ideias à liberdade física, aquilo que pensamos e queremos coloca-nos directamente ante a política: seja em oposição frontal à seguida por determinado Governo, seja de simples desacordo, seja de apoio franco.

Porque somos homens, seres inteligentes e livres chamados a lutar pela realização desses dons na vida, formamos a nossa opinião e exprimimos as nossas ideias, pelo menos no círculo de pessoas que nos cercam.

Mas se nos limitarmos a isso, se nos demitimos da intervenção activa, não passaremos de desportistas de bancada, ou melhor, de políticos de café.

A intervenção activa é a única possibilidade que temos de tentar passar do isolamento das nossas ideias e das teorias das nossas palavras à realidade da actuação prática, sem a qual as ideias definham e as palavras se tornam ocas.

Trata-se portanto de um direito e de um dever que nos assiste como simples cidadãos, pelo qual não nos devemos cansar de lutar e ao qual não nos podemos esquivar a corresponder.

Podemos sentir ou não vocação para o desempenho de atitudes ou de cargos políticos, podemos aceitar ou não as condições em que estamos, concordar ou não com a forma como a intervenção nos é facultada, mas não temos o direito de nos demitirmos da dimensão política, que, resultante da nossa liberdade e da nossa inteligência, é essencial à condição de homens.
[...]"

Intervenham!
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7.9.10

O monstro continua imparável

"Enquanto a despesa caiu 14% na Grécia, 2,9% na Irlanda e 2,5% em Espanha, em Portugal subiu 4%. Quando é que se controla o monstro?" (aqui)

Isto é uma vergonha, um escândalo, uma afronta a todos os contribuintes. Pedir para pagar SCUTs, reduzir as deduções de IRS, aumentar o IVA, aumentar os escalões IRS, etc, etc, etc, sem reduzir (meio por cento que seja!!) a despesa pública, é um insulto a todos os Portugueses.

6.9.10

Vital Mentideira

Diz Vital Moreira (aqui) que cobrar portagens nas SCUT é “terminar com uma iniquidade, pondo os beneficiários dessas infra-estrutras a pagar a vantagem privativa que tiram delas, assim dispensando os contribuintes em geral (incluindo os que não as usam) de ter de o fazer com os seus impostos.

Dispensando? Mas os contribuintes em geral vão pagar menos impostos a partir do momento em que os contribuintes que circulam nas SCUT passem a pagar portagens? Vital Moreira está a gozar com a nossa cara?!?!

Isto só seria verdade num de dois cenários: se os impostos para os contribuintes em geral baixassem no mesmo montante das portagens cobradas; ou se o portajar das SCUT se inserisse num esforço sério de equilíbrio das contas públicas, que incluísse nomeadamente uma fortíssima redução da despesa do Estado (veja-se o exemplo britânico aqui).

É inadmissível que o Governo seja absolutamente incapaz de reduzir a despesa (ver aqui ou aqui, por ex.), nomeadamente a despesa que não é de investimento. Só que, como já disse antes, é necessário manter o controlo da sociedade e isso custa dinheiro. Portanto, o contribuinte que pague ainda mais.

Qualquer dia torno-me revolucionário. Revolucionário anti-socialista, claro.
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22.8.10

Totalitário

Com Sócrates, o poder central tem de dominar o país, o PS tem de dominar o poder central e ele próprio tem de dominar o PS - num crescendo de mediocridade assustador.
Nada importante se passa fora deste esquema e quem tem veleidades é rapidamente atacado. BCP, Público, TVI, Metro do Porto, parques nacionais, etc., etc., etc. Estou convencido que o veto à venda da Vivo teve menos que ver com o interesse nacional e mais com o facto da Telefónica não ter consultado o Governo (que desplante!).
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Tudo isto mata o resto do país, que se abafa em Lisboa, cidade cada vez com pior qualidade de vida.
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Tudo isto cria hábitos de ineficiência no sector público.
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Tudo isto cria hábitos de pedinchismo no sector privado, habituado aos negócios sem risco providenciados pelos amigos no poder. Não me esqueço do Manuel Godinho a dizer numa das escutas: "ó pá, isto [a sua situação financeira] está complicado, não se arranja aí nada para mim?".
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Tudo isto implica ir distribuindo as migalhas pelas empresas e pelas instituições, para as manter contentes.
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Portanto, a despesa pública nunca irá descer.

Logo, sobem os impostos ou, o que dá no mesmo, a carga fiscal - mas não tem mal, está tudo controlado. Literalmente.
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Nota: template temporário para condizer com o post.

As Verdes Colinas de África

Desilusão.

De Hemingway espera-se sempre uma obra-prima e esta não o é. Esclareça-se que não é uma obra de ficção, mas sim uma descrição de uma temporada de caça em África.

Antes desta obra só tinha lido as 3 principais de Hemingway: Um Adeus às Armas, Por Quem os Sinos Dobram e O Velho e o Mar. São três obras fantásticas. Sim, já aí Hemingway era parco nos adjectivos. Sim, já nesses livros não se alonga a descrever emoções, antes as deixa subentendidas nas descrições dos acontecimentos. Sim, já aí gosta de frases curtas. Mas neste livro leva esse esforço de despojamento ao nível do soporífero. Quem já estiver estado numa caçada em África, talvez goste. Quem nunca lá esteve, aborrece-se com cada detalhezinho de cada momento de cada caçada, com pouco mais de humano para nos relacionarmos.

Pelo meio há umas considerações sobre literatura, que se limitam a umas tiradas de linha e meia, tipo twitter.

- "O que pensa de Ringelnatz?"
- "É maravilhoso".
- "Com que então gosta de Ringelnatz. Óptimo. E o que pensa de Heinrich Mann?"
- "Não vale nada".
- "Acha?"
- "O que sei é que não consigo lê-lo".

E pronto, passa para o autor seguinte. Lá há um ou outro sobre o qual se detém mais, mas a maior parte é neste estilo telegráfico. Por vezes é bastante ácido, quer com escritores à época bem vivos, quer com alguns dos seus leitores-admiradores (a começar pelo seu interlocutor, com ares de pretendente parvo a literato), mas sempre no mesmo registo.

É aqui que surge uma tirada de Hemingway que é muito citada, sobre Mark Twain:

- "Toda a moderna literatura americana vem de um livro de Mark Twain chamado Huckleberry Finn. Se o ler, deve parar onde o negro Jim é roubado aos rapazes. Aí é realmente o fim. O resto é uma fraude. Mas é o melhor livro que até à data tivemos. Todos os escritores americanos provêm daqui. Não há nada antes. Não houve nada tão bom depois."

Não é a mais exaustiva nem penetrante análise de Huckleberry Finn, mas é das mais assertivas. Bom soundbyte, bom twit, diríamos hoje. Pouco mais.

Isto vem logo no início e é retomado mais para a frente, sem resultados melhores. Depois, longas descrições de caçadas (tanto que para mim mais valia retirar a cedilha). Recomendo ler na cama, antes de deitar.


Só o último capítulo é que me agradou mais, sem nunca deslumbrar. Tem uma descrição mais viva, mais entusiasmante, talvez por ser o capítulo do triunfo. Deixa mais de lado os meandros da caçada e explora mais a relação com os nativos e os acompanhantes, incluindo a inveja causada pelo amigo que abateu caça maior. Mas, sendo melhor, nunca chega aos calcanhares de Por Quem os Sinos Dobram ou de O Velho e o Mar.

(Nota para mim próprio: ler o Huckleberry Finn :)

Adenda: template temporário em honra do post.

20.8.10

Queiroz

As declarações de Queiroz sobre Amândio de Carvalho, na entrevista ao Expresso, revelam uma grande falta de inteligência, de sentido estratégico e, sobretudo, de sentido táctico. O que não é nada bom num treinador de futebol.

Na minha opinião, das três, uma:
  1. ou confrontava directamente (isto é, em privado) o Vice da Federação;
  2. ou dizia ao Madaíl "ou ele ou eu";
  3. ou calava-se até toda esta estupidez passar (se os resultados começassem a vir e a qualificação começasse a ser uma inevitabilidade, com certeza que ninguém mais falava nestes assuntos).

Eu optava pela primeira e, se necessário, pela segunda. Da terceira hipótese não gosto, mas reconheço nela alguma inteligência e tacticismo eficazes.

Agora, criticar em público é que foi a maior burrice do Queiroz desde a substituição de Hugo Almeida por Danny no Portugal-Espanha.

Nota: template do blog temporariamente alterado para condizer com o tema do post.

17.8.10

INVICTUS

Existe o livro e existe o filme. Não apenas fisicamente, claro, mas enquanto realidades. O livro e o filme são realidades bem diferentes. Um descreve o que se passou, o outro “hollywoodiza” o que se passou. O verbo “hollywoodizar” devia existir nos dicionários há muito tempo e Invictus é um exemplo claro desse imperativo. Não significa isto que o filme, entendido tal qual é, seja um filme menor. Afinal de contas, tem Clint Eastwood como director e Morgan Freeman como actor. Tem é de ser percebido como um produto de Hollywood baseado numa história verídica, não como essa história em si.

Comecemos pelo princípio.

A história que em ambos se conta é a da equipa de râguebi sul-africana (conhecida como os Springboks) que se sagrou campeã do mundo em 1995 e, especialmente, a forma como Nelson Mandela conseguiu reunir o povo sul-africano (todo ele) em torno dessa equipa.

Assim dito, pode não parecer grande proeza. Primeiro, a África do Sul sempre teve tradição nesse desporto (aliás, viria a vencer de novo o título mundial alguns anos depois). Depois, não era propriamente a primeira vez que uma equipa nacional mobilizava as esperanças de todo um povo. Sempre que há um Mundial de futebol, todo o Brasil fica electrizado. Só que há aqui uma enorme diferença. O râguebi era o desporto favorito da minoria branca pró-apartheid. Era mesmo um símbolo dessa minoria e desse regime. A população negra nunca fora adepta do desporto, desconhecia as regras, desprezava a equipa nacional – e regozijava-se sempre que ela perdia, porque era como se o próprio apartheid perdesse. Nos anos 80 houvera uma enorme campanha mundial para bloquear a participação dos Boks em competições internacionais, que teve sucesso – e a maioria negra comemorou intensamente. Em 1995 Mandela era já presidente, mas tinha sido libertado há meros cinco anos. As eleições haviam sido apenas no ano anterior. O país e o presidente procuravam construir a reconciliação, não alienar nenhuma minoria, impedir a natural tendência para o sentimento de vingança da maioria negra em relação à minoria branca, acabar com os discursos pró-violência de extremistas brancos e negros.

Ou seja, o país vivia no fio da navalha, com qualquer episódio aparentemente menor a poder conduzir à guerra civil.

Livro e filme permitem-nos perceber perfeitamente este contexto. Obviamente, o livro dá-nos bastante mais detalhes, fornecendo uma breve história da transição do apartheid para a democracia. O filme, por limitações de tempo, não o pode fazer, mas com duas ou três cenas expressivas (a começar pela impressionante e esclarecedora cena de abertura) situa-nos rápida e eficazmente no contexto. Resumindo, livro e filme deixam claro que os Boks eram um símbolo do apartheid, aproveitado por extremistas brancos para acicatar receios e odiado pela população negra.

E aqui surge Mandela.


No livro acompanhamos a forma como Mandela, ainda na prisão, foi habilmente conhecendo os seus inimigos, conquistando a sua confiança e negociando com eles a sua libertação e a instituição da democracia, ao mesmo tempo que tranquilizava os seus correlegionários do ANC e lhes moderava progressivamente a vontade de vingança. O filme centra-se mais no período pós-eleições, em que Mandela já é presidente e, com a sua extraordinária intuição política, se apercebe rapidamente do potencial do râguebi como factor de união. Se até no râguebi o povo se unisse, então unir-se-ia mais facilmente em tudo o resto.

A partir daí vemos como Mandela o conseguiu. Não o conto, porque seria um crime para quem ainda não leu o livro nem viu o filme. Normalmente não queremos que nos contem o fim. Aqui o fim é conhecido, não convém contar é a história maravilhosa que vem antes, onde vemos o poder de uma liderança inspiradora, pacificadora e mobilizadora ao mesmo tempo. Que homem extraordinário é Mandela e como foi o homem certo no momento certo!

Portanto, deixo o recheio por contar e termino voltando às diferenças entre livro e filme. A hollywoodização da história não prejudicou a mensagem central nem a sua beleza. Continua a ser uma história extraordinária, que merece ser contada, num grande filme que merece ser visto. Um dos melhores filmes do ano, sem margem para dúvidas. Mas certas cenas simplesmente não aconteceram. Na maioria dos casos, percebe-se porque foram alteradas. Por exemplo, é mais expressivo no grande écran e mais condicente com o hollywood heroe ver Mandela fazer um discurso “inspirador” que muda a opinião de uma sala cheia de dirigentes negros do que a forma como isso se passou na realidade: Mandela falou com cada um individualmente, até os convencer. Um belo discurso é mais bonito do que a política de bastidores. Mais bonito e certamente mais nobre, na ética de hollywood. Seja como for, é um exemplo de uma alteração que não muda a substância da história.

Há apenas uma mácula. O filme centra-se numa relação especial entre Mandela e o capitão da equipa, François Pienaar. É uma estratégia bastante hollywoodesca. O mestre e o aluno. O super-herói e o fiel ajudante. O líder que convence o céptico. O homem excepcional que leva o common guy a transcender-se.

É pena. Essa relação especial entre Mandela e o capitão dos Boks existiu, mas o filme acaba por ofuscar injustamente os outros construtores da reconciliação. Na verdade, muitos outros tiveram um papel importantíssimo, desde outros jogadores até ao treinador, passando pelo manager, pelo presidente da federação, por vários dirigentes negros e, até, por extremistas progressivamente convertidos à causa de uma democracia multipartidária e multiétnica na África do Sul.

Fica, como disse, uma excelente história, contada de forma fantástica num excelente filme. Mas se querem saber a história completa, leiam o livro. É ainda melhor.

Nota: alterei temporariamente o template para condizer com este post.

5.8.10

Empire

Vou tentar escrever um pouco sobre os livros que tenho lido. Começo logo pelo último.

Li este livro em poucos dias, durante as férias. Fiquei vidrado e lia em cada segundinho livre. Conta a História do Império Britânico, desde os primórdios da pirataria até à queda estranhamente previsível e inevitável.

É um livro extraordinário, por vários motivos. Destaco três notas.

Primeiro, a escrita.

O autor é um académico reconhecido, com percurso a atravessar universidades de renome. O conteúdo é rigoroso (pelo menos, assim parece a um leigo como eu). No entanto, a escrita não é nada árida mas antes bastante dinâmica, por vezes pontuada com ironia e humor, muitas vezes criando um suspense que nos faz querer ler o que vem mais à frente.

Exemplos? OK, aqui vai um do humor: a certa altura fala de um súbdito de sua majestade que, na Índia, apanhou a sua mulher com outro homem, o que, segundo Ferguson, "o fez perder a sua fé em Deus, já para não falar na mulher". Está bem que é humor britânico suave, mas alguém imagina um Mattoso ou um Hespanha a aplicá-lo num livro de História? (Esclareço apenas que o detalhe é importante, quer porque o senhor veio a ser um dos grandes exploradores de África, quer porque demonstra que nem todos os exploradores iam imbuídos de espírito de crente fervoroso com fins missionários).

Quanto ao suspense, lembrou-me outro estilo de escrita que me era familiar. À medida que ia lendo o livro, reparei que no final de cada capítulo ou secção deixava uma pista que aguçava o apetite para algo que viria mais à frente, como que dizendo: se vais pousar agora o livro, olha que fazes bem em depois voltar a ele, ainda vem aí muita coisa interessante. Esta construção não me era estranha, mas não me lembrei logo de quem se tratava. De repente ocorreu-me: Dan Brown, o do Código Da Vinci! Quando o li, reparei no mesmo truque: no final de cada capítulo, estender uma cenoura para o seguinte. Só nas últimas páginas, nos agradecimentos, percebi que pode ter havido um bom motivo para isso: o autor foi convidado para escrever um documentário em vários episódios para o Channel 4 sobre o Império Britânico e o livro, não sendo o guião do documentário, provavelmente foi beber ao estilo narrativo do género.

Segundo, a visão que nos dá do Império - e como foi diferente do Império Português!

Antes de mais, foi construído e ampliado sobretudo por iniciativa privada. A Índia, jóia da coroa vitoriana, foi conquistada e domada progressivamente por mercenários ao serviço da Companhia das Índias britânica, não ao serviço da coroa. Em África, os diamantes e o ouro levaram o banqueiro Rotschild a "investir" na guerra dos bóeres.

Depois, viveu desde cedo numa tensão entre os colonizadores além-mar, frequentemente impiedosos com os nativos, e os britânicos "em casa", mais inclinados a fazer respeitar os nativos (ainda que geralmente pretendendo civilizá-los à sua maneira). Enquanto uns queriam mão-de-obra submissa, outros queriam estabelecer o "rule of law", o fim da escravatura, a representação política, o chá das cinco, a civilização tal como a viam.

Terceiro, a quase imparcialidade. Ferguson não chega bem a ser imparcial. Percebe-se o entusiasmo e a admiração. Isso não o impede de nos dar "the full picture". Nunca esconde as contradições, os erros, as humilhações infligidas a terceiros, os massacres de nativos, as violações de direitos humanos que hoje consideramos fundamentais.

Mas também não esconde uma certa admiração por essa pequena nação atlântica que acabou por governar um quarto do mundo, com um território onde o sol nunca se punha, e que pelo caminho levou aos 4 cantos do planeta a ideia de democracia parlamentar, de capitalismo liberal (sim, é um ponto positivo, quer queiram quer não), de escolas e universidades de excelência, de administração pública eficaz e incorruptível, de imprensa livre e de justiça estável e confiável. Nem ele, nem eu.