27.11.12
Veríssimo
Luís Fernando Veríssimo é filho do escritor Érico Veríssimo e, de mérito próprio, um cronista pleno de êxito. Conheci o seu trabalho porque há uns anos o Expresso publicava crónicas suas todos os Sábados.
Eram crónicas de pequenas histórias, apontamentos, impressões, retratos do quotidiano apanhados na rede da perspicácia do autor. Nada tinham de pretensiosismo – mas eram brilhantes. Nada tinham de vã exibição de construção literária – mas eram muitíssimo bem escritas. Nada tinham de arrogância – mas exibiam uma ironia cirúrgica, que revelava o interior humano das histórias para logo o cobrir de um humor único, que o matizava. Uma maravilha.
Há uns tempos, no entanto, vi-o num programa de televisão, de visita a Portugal. E descobri um escritor tímido, acanhado mesmo. O meu espanto foi total. Onde estavam as tiradas desarmantes? Onde estavam as observações inteligentes? Onde estava a ironia mortífera? Onde estava o humor certeiro e divertidíssimo?
A resposta era só uma: estava tudo escondido. Lá, seguramente, mas escondido.
Este é o drama do tímido inteligente: em privado, com tempo e recato, a sua genialidade derrota inapelavelmente a timidez. Mas em público, sob a pressão da interacção social e da ditadura do imediato, a sua timidez oprime a genialidade.
O mesmo nesta entrevista: a propósito dos Portugueses e dos Brasileiros, da literatura ou da descoberta pessoal do país do outro, Miguel Sousa Tavares revela a sua inteligência e wit, enquanto Luís Fernando Veríssimo se perde poucos furos acima da banalidade. Fossem as respostas por e-mail e outro galo cantaria. (Quase) literalmente.
13.9.12
Entre a acefalia e a bicefalia: uma viagem ao Bloco de Esquerda (segurem-se bem!)
Também já sabemos que quanto mais à Esquerda, maior a arrogância. Basta ouvir um discurso de Louçã para percebermos que aquele homem é senhor da verdade do mundo e, claro está, que os oponentes são a escumalha da Terra. Por isso soa como um pregador puritano que nos tenta fulminar com a sua mensagem: o Bloco detém a Verdade Pura, a Direita é o desvio, a personificação do Mal.
Obviamente, segundo a propaganda do Bloco a sua ideia de Democracia é a mais pura e a sua ideia de organização interna é a única que assegura verdadeira democraticidade no seio de um movimento político.
Exploremos um pouco mais estas ideias propagandeadas.
O Bloco defende realmente uma democracia diferente. Apelida o sistema democrático representativo vigente de “falsa democracia” ou de “democracia burguesa”. Em alternativa, propõe uma democracia “directa”. Esta consiste em níveis sucessivos de assembleias supostamente abertas à participação de todos, discutindo tudo, decidindo colectivamente, de preferência por consenso.
Por isso se excitaram tanto com as Assembleias Populares que começaram a surgir em Espanha e com o movimento Occupy Wall Street. Tentaram replicar a ideia por cá, com o (in)sucesso que conhecemos. Aquele aglomerado de pessoas e piolhos que se reunia na Praça da Batalha, no Porto, com frases tão líricas quanto vazias, deveria supostamente galvanizar o Povo do Porto, levá-lo a discutir o futuro da cidade e do mundo e encostar às cordas a Democracia Representativa. Em vez disso, como sabemos, não conseguiu a adesão de ninguém a não ser deles próprios e de uns jovens alemães e espanhóis que viajam pela Europa a pregar as maravilhas da democracia directa a troco de alojamento e comida grátis – turismo low-cost político, uma novidade.
A verdade é que o Povo do Porto ignorou olimpicamente a Assembleia Popular da Batalha, como o Povo de Lisboa ignorou a Assembleia do Rossio e o Povo de Nova Iorque a Assembleia do Occupy.
Como reagiu o Bloco?
Primeiro, com a habitual vitimização. A culpa, obviamente, é do sistema. As pessoas andam enganadas pela Comunicação Social, temerosas de afrontar os interesses (a vitimização face a uma suposta repressão terrível dos poderes intalados é outra constante da Extrema-Esquerda), adormecidas pela descrença na possibilidade de mudança, perseguidas à bastonada pela polícia (no Chiado, depois de insultarem e atirarem objectos a polícias que nada lhes tinham feito, lá veio a polícia de intervenção dar umas bastonadas para contentamento da sua teoria da forte repressão policial).
Segundo, com a certeza que uma correcta “consciencialização” do Povo irá mudar tudo, nascendo uma nova Democracia (haja paciência para esta gente, nunca aprendem nem desistem).
Para os bloquistas, não podem é restar dúvidas que esta forma de democracia “directa”, “popular” e “colectivista/consensual” é a única forma de Democracia verdadeira, a única forma de Democracia pura.
Muito interessante é a transposição destes conceitos de Democracia para o seu funcionamento interno enquanto movimento político.
Seria de imaginar que o Bloco teria uma organização interna “directa”, “popular” e “colectivista/consensual”, certo?
Eles tentaram, mas falharam.
Numa primeira fase, a Mesa Nacional era o órgão máximo do movimento. Não havia nenhum líder e todas as decisões seriam tomadas por esse órgão colectivo.
Era a acefalia (ausência de cabeça ou líder) a que me refiro no título deste artigo.
De facto, ao falar em acefalia bloquista não queria insinuar que a massa cinzenta não abunda para aqueles lados (se bem que…). Queria apenas aludir a esta ideia purista de ausência de líder, de decisões colectivas/consensuais, de poder partilhado por todos, que supostamente está no DNA do Bloco e estaria nesta primeira liderança colectiva.
Claramente esta ideia provém das correntes trotsquistas dentro do Bloco e é herdeira da crítica de Trotsky à ditadura do regime soviético de Estaline. Para Trotsky, um dos principais desvios do comunismo soviético face ao socialismo “puro” era a natureza ditatorial do regime – embora nunca se tenha queixado da mesma enquanto esteve no topo do poder, no tempo de Lenine, mas enfim...
Voltando à evolução do tipo de liderança no Bloco: obviamente esta organização acéfala era muito bonita mas pouco ou nada prática. Imagino que o tempo de resposta nem sempre seria o melhor.
Passaram então a uma segunda fase, em que entenderam útil eleger um líder. Perdão, um Coordenador! A designação não era casual: o Bloco nunca poderia ter um líder ou presidente. Mesmo um secretário-geral (ou qualquer outra designação que evidenciasse um “primus inter pares”) seria uma traição ao espírito colectivista. Abrenúncio!: Louçã seria um mero Coordenador, um instrumento para agilizar a implementação das decisões colectivas.
Todos sabemos que Louçã foi bem mais do que isso, mas o manto moral tinha de ser preservado.
Entramos agora na terceira fase, a da sucessão de Louçã. E este, apesar de todas as grandiloquentes proclamações colectivistas, não resistiu à tentação muito pouco democrática de escolher sucessor, qual monarca árabe. Então e a discussão colectiva? Então e a decisão por consenso? Então e a superioridade democrática face aos outros partidos? Era tudo um castelo de ilusões em vias de ruir estrondosamente.
De facto, inicialmente Louçã escolheu João Semedo. E houve quem não gostasse, nomeadamente os ex-UDP. Só depois dos ex-UDP recusarem a escolha de João Semedo é que começaram a procurar uma outra solução.
E que solução foi essa? A bicefalia! A liderança passará a ser detida por João Semedo e Catarina Martins.
(Uma curiosidade: recentemente eram os ex-PSR – Louçã e companhia limitada –, supostamente trotsquistas e, portanto, colectivistas, que queriam uma solução de liderança individual com João Semedo; e eram os ex-UDP – Fazenda y sus muchachos –, supostamente maoístas e, portanto, menos dados a lirismos de liderança colectiva, que queriam uma solução colectiva. Ainda agora se vê que são os ex-PSR a querer a solução bicéfala e os ex-UDP a querer a solução colectiva, donde se vê também que as diferenças têm mais a ver com personalidades e nomes do que com elevados princípios morais e democráticos. Isto vai começar a aquecer para aqueles lados!)
Esta solução bicéfala tem muitos aspectos curiosos:
Desde logo, há uma clara indigitação dos novos líderes pelo Querido Líder cessante, muito longe da democracia interna de qualidade supostamente superior que tanto apregoam. As eleições directas do PSD, do PS e do CDS são claramente mais democráticas que esta solução imposta de cima para baixo.
Depois, é claramente uma solução de compromisso entre dirigentes de topo desavindos, mais uma vez de cima pra baixo, alienando a totalidade dos militantes que se vêem perante um facto consumado.
De facto, eu entenderia que continuasse a existir apenas um líder ou que se voltasse a uma solução colectiva. O que não entendo é a solução bicéfala.
De facto, porquê dois líderes?
Se fosse só um seria menos democrático? Isso significa que a liderança de Louçã foi pouco democrática?
Quando é só um, há tendência para o autoritarismo? Isso significa que a liderança de Louçã foi autoritária? A solução de um só líder não resultou? Isso significa que a liderança de Louçã falhou?
E porquê dois e não três ou quatro ou vinte? O que torna a liderança bicéfala melhor que uma liderança tricéfala, quadricéfala, multicéfala?
Para revestir esta solução com um manto de elevados princípios morais e políticos, os proponentes desta solução apelidaram-na de “paritária”. O Bloco poderia assim manter a sua arrogância política: estaria de novo na vanguarda política, sendo o primeiro partido político a ter uma liderança “paritária”. Que modernos!
Mas, mais uma vez, porquê paritária em género sexual e não paritária em origem geográfica, alguém do interior e alguém do litoral? Ou paritária em orientação sexual, alguém hetero e alguém homo? Ou paritária em idade? As possibilidades de combinação paritária são infinitas!
E porque estão a excluir os transsexuais e transgenderistas? Logo o Bloco, que tanta atenção dedica a estas questões de géneros!
A verdade é que o número não revela a qualidade democrática da liderança. Não se é mais democrático por se ter dois em vez de um.
De facto, um líder (individual) pode respeitar integralmente as regras democráticas, executar apenas o programa do mandato que lhe foi conferido e consultar periodicamente os seus eleitores. E, do mesmo modo, uma liderança grupal pode mandar sem ouvir ninguém fora desse grupo restrito nem atender ao interesse geral – chama-se a isso Oligarquia e já existe desde a Grécia Antiga.
Donde que podem tentar cobrir esta solução de liderança com mantos de democracia avançada, paritária, progressista, o que quiserem. A verdade é esta: é uma solução de recurso, imposta de cima para baixo, que nada tem de democrática.
O manto caiu: falam em democracia “directa”, mas na verdade querem é que seja controlável; falam em democracia “popular”, mas na verdade querem é que seja ditada pelos seus próceres; e falam em democracia “colectivista/consensual”, mas na verdade querem é que seja manipulada para os seus objectivos. O autoritarismo sempre latente na extrema-esquerda está a vir ao de cima.
Obviamente, nem todos no Bloco estão a aceitar isto passivamente.
Assim, terminamos esta viagem ao Bloco com um vislumbre do destino a que não poderá escapar: o Bloco vai explodir, por entre diferenças insanáveis de estratégia por motivos de elevadíssima moral política que conduzirão a conflitos tristes que estilhaçarão o Bloco em mil pedaços. Ok, vá, talvez não em mil mas pelo menos em seis ou sete.
Numa coisa concordo com eles: o futuro será melhor. Só que não será deles – felizmente!
7.7.11
Livres
Precisamos de todos os que são livres dos partidos, dos sindicatos, dos aventais, da obra, dos grupos económicos, dos grupos mediáticos, dos grupos religiosos, dos grupos profissionais, dos grupos académicos, da função pública, das agências de rating, dos especuladores, dos monopólios, dos oligopólios protegidos, dos oligopólios escondidos, dos lobbies e de todo e qualquer grupo de interesse que para aí exista.
Mas como assim seríamos poucos, precisamos também dos que são livres nos partidos, nos sindicatos, nos aventais, na obra, nos grupos económicos, nos grupos mediáticos, nos grupos religiosos, nos grupos profissionais, nos grupos académicos, na função pública, nas agências de rating, nos especuladores, nos monopólios, nos oligopólios protegidos, nos oligopólios escondidos, nos lobbies e em todo e qualquer grupo de interesse que para aí exista.
Precisamos de ouvir a sua voz na sociedade cada vez que um grupo de interesses procure manter o seu benefício em detrimento do bem comum.
Precisamos de ouvir a sua voz na sociedade cada vez que um grupo de interesses lance a agitação e tente o descrédito.
Precisamos de ouvir a sua voz na sociedade se o novo Governo tardar no inadiável ou tergiversar no caminho.
Mas também precisamos de ouvir a sua voz dentro do grupo de interesse, quando este procure manter o seu benefício em detrimento do bem comum.
Mas também precisamos de ouvir a sua voz dentro do grupo de interesse, quando este procure lançar a agitação e o descrédito.
Mas também precisamos de ouvir a sua voz dentro do Governo e dos partidos que o suportam, se estes tardarem no inadiável ou tergiversarem no caminho.
Porque se os seres livres deste país não o fizerem, de forma bem audível, estamos perdidos.
Há que apoiar a salvação de Portugal e há que exigir a salvação de Portugal. Sejamos livres para isso.
4.4.11
2.3.11
The Third Man, autobiografia de Peter Mandelson

.
14.12.10
Carlucci vs. Kissinger
Portugal esteve poucas vezes sob os olhares do mundo. Devemos ter despertado algum interesse na Europa e no Norte de África quando tentávamos empurrar os mouros d'aquém mar para além mar, acrescentámos o olhar dos indianos e dos árabes quando desviámos a rota das especiarias para o Cabo da Boa Esperança e concentrámos a atenção (por uns 3 ou 4 dias) dos impérios de há 100 anos quando assassinámos brutalmente el-Rei e o Príncipe herdeiro. 28.11.10
JSD
29.10.10
Caros Governantes Socialistas:
22.10.10
Porque se calam os jornalistas?
Serei o único a achar que os jornalistas não fazem perguntas verdadeiramente difíceis, daquelas de entalar, a Teixeira dos Santos e a Sócrates?
Que alguém os devia obrigar a deixar de pôr as culpas nos mercados, nas agências de rating, no mundo-que-mudou-em-15-dias, na Grécia, na Irlanda, na Espanha, em Wall Street e no diabo a quatro?
Que deviam indignar-se quando os socialistas apelam ao sentido de responsabilidade da Oposição, quando eles são os mais irresponsáveis?
Que deviam perguntar porque falharam o PEC I e o PEC II, sendo nós o único país europeu em dificuldades financeiras a ver crescer a despesa, incluindo a corrente e mesmo não contando com os juros da dívida?
Que deviam perguntar incisivamente porque devemos acreditar que desta vez é que é, que desta vez é que vão controlar as contas públicas?
Serei o único a achar isto?
Ou sentem-se todos intimidados? O caso Manuela Moura Guedes terá sido, afinal, um aviso? "Quem se mete com o PS, leva"? É isso?
1.10.10
25.9.10
The spending brother
Dois irmãos concorriam à liderança do Labour Party. David Miliband ganhou a maioria dos votos dos militantes e dos deputados, só que os sindicatos preferiram Ed Miliband e isso, no complexo sistema eleitoral do Partido Trabalhista, fez a diferença. Conjugados os três tipos de votos, Ed Miliband ganhou por uma diferença de pouco mais de 1%.
Agora está nas mãos dos sindicatos, que são dos mais retrógrados da Europa. Culpam os «ricos» de tudo e mais alguma coisa. Sonham ainda com a colectivização dos meios de produção. São os velhos defensores do “tax-and-spend”: aumentar os impostos para criar mais um subsídio, mais uma benesse.
Essa tradição “Old Labour” manteve o partido fora do governo durante quase 20 anos e, durante décadas, impediu-o de ganhar duas eleições seguidas (até surgir Tony Blair e o seu “New Labour” centrista e moderado).
São retrógados, estão errados e longe da “Middle England”. Cameron pode dormir descansado.
16.9.10
Ao ouvir a notícia que Portugal se endivida ao ritmo de 2,5 milhões de euros por hora...
"[...] Por muito que se tenha educado no descrédito da política, é-se forçado a reconhecer que, quando se começa a tomar em profundidade consciência da nossa própria existência pessoal e das realidades que nos cercam, somos constantemente conduzidos a ela [à política].
Desde a educação e futuro dos nossos filhos às nossas próprias condições de trabalho e de vida, desde a liberdade de ideias à liberdade física, aquilo que pensamos e queremos coloca-nos directamente ante a política: seja em oposição frontal à seguida por determinado Governo, seja de simples desacordo, seja de apoio franco.
Porque somos homens, seres inteligentes e livres chamados a lutar pela realização desses dons na vida, formamos a nossa opinião e exprimimos as nossas ideias, pelo menos no círculo de pessoas que nos cercam.
Mas se nos limitarmos a isso, se nos demitimos da intervenção activa, não passaremos de desportistas de bancada, ou melhor, de políticos de café.
A intervenção activa é a única possibilidade que temos de tentar passar do isolamento das nossas ideias e das teorias das nossas palavras à realidade da actuação prática, sem a qual as ideias definham e as palavras se tornam ocas.
Trata-se portanto de um direito e de um dever que nos assiste como simples cidadãos, pelo qual não nos devemos cansar de lutar e ao qual não nos podemos esquivar a corresponder.
Podemos sentir ou não vocação para o desempenho de atitudes ou de cargos políticos, podemos aceitar ou não as condições em que estamos, concordar ou não com a forma como a intervenção nos é facultada, mas não temos o direito de nos demitirmos da dimensão política, que, resultante da nossa liberdade e da nossa inteligência, é essencial à condição de homens. [...]"
Intervenham!
7.9.10
O monstro continua imparável
Isto é uma vergonha, um escândalo, uma afronta a todos os contribuintes. Pedir para pagar SCUTs, reduzir as deduções de IRS, aumentar o IVA, aumentar os escalões IRS, etc, etc, etc, sem reduzir (meio por cento que seja!!) a despesa pública, é um insulto a todos os Portugueses.
6.9.10
Vital Mentideira
É inadmissível que o Governo seja absolutamente incapaz de reduzir a despesa (ver aqui ou aqui, por ex.), nomeadamente a despesa que não é de investimento. Só que, como já disse antes, é necessário manter o controlo da sociedade e isso custa dinheiro. Portanto, o contribuinte que pague ainda mais.
Qualquer dia torno-me revolucionário. Revolucionário anti-socialista, claro.
23.8.10
22.8.10
Totalitário
As Verdes Colinas de África
Antes desta obra só tinha lido as 3 principais de Hemingway: Um Adeus às Armas, Por Quem os Sinos Dobram e O Velho e o Mar. São três obras fantásticas. Sim, já aí Hemingway era parco nos adjectivos. Sim, já nesses livros não se alonga a descrever emoções, antes as deixa subentendidas nas descrições dos acontecimentos. Sim, já aí gosta de frases curtas. Mas neste livro leva esse esforço de despojamento ao nível do soporífero. Quem já estiver estado numa caçada em África, talvez goste. Quem nunca lá esteve, aborrece-se com cada detalhezinho de cada momento de cada caçada, com pouco mais de humano para nos relacionarmos. 
(Nota para mim próprio: ler o Huckleberry Finn :)
Adenda: template temporário em honra do post.
20.8.10
Queiroz
Na minha opinião, das três, uma:
- ou confrontava directamente (isto é, em privado) o Vice da Federação;
- ou dizia ao Madaíl "ou ele ou eu";
- ou calava-se até toda esta estupidez passar (se os resultados começassem a vir e a qualificação começasse a ser uma inevitabilidade, com certeza que ninguém mais falava nestes assuntos).
Eu optava pela primeira e, se necessário, pela segunda. Da terceira hipótese não gosto, mas reconheço nela alguma inteligência e tacticismo eficazes.
Agora, criticar em público é que foi a maior burrice do Queiroz desde a substituição de Hugo Almeida por Danny no Portugal-Espanha.
Nota: template do blog temporariamente alterado para condizer com o tema do post.
17.8.10
INVICTUS

Comecemos pelo princípio.
A história que em ambos se conta é a da equipa de râguebi sul-africana (conhecida como os Springboks) que se sagrou campeã do mundo em 1995 e, especialmente, a forma como Nelson Mandela conseguiu reunir o povo sul-africano (todo ele) em torno dessa equipa.
Assim dito, pode não parecer grande proeza. Primeiro, a África do Sul sempre teve tradição nesse desporto (aliás, viria a vencer de novo o título mundial alguns anos depois). Depois, não era propriamente a primeira vez que uma equipa nacional mobilizava as esperanças de todo um povo. Sempre que há um Mundial de futebol, todo o Brasil fica electrizado. Só que há aqui uma enorme diferença. O râguebi era o desporto favorito da minoria branca pró-apartheid. Era mesmo um símbolo dessa minoria e desse regime. A população negra nunca fora adepta do desporto, desconhecia as regras, desprezava a equipa nacional – e regozijava-se sempre que ela perdia, porque era como se o próprio apartheid perdesse. Nos anos 80 houvera uma enorme campanha mundial para bloquear a participação dos Boks em competições internacionais, que teve sucesso – e a maioria negra comemorou intensamente. Em 1995 Mandela era já presidente, mas tinha sido libertado há meros cinco anos. As eleições haviam sido apenas no ano anterior. O país e o presidente procuravam construir a reconciliação, não alienar nenhuma minoria, impedir a natural tendência para o sentimento de vingança da maioria negra em relação à minoria branca, acabar com os discursos pró-violência de extremistas brancos e negros.
Ou seja, o país vivia no fio da navalha, com qualquer episódio aparentemente menor a poder conduzir à guerra civil.
Livro e filme permitem-nos perceber perfeitamente este contexto. Obviamente, o livro dá-nos bastante mais detalhes, fornecendo uma breve história da transição do apartheid para a democracia. O filme, por limitações de tempo, não o pode fazer, mas com duas ou três cenas expressivas (a começar pela impressionante e esclarecedora cena de abertura) situa-nos rápida e eficazmente no contexto. Resumindo, livro e filme deixam claro que os Boks eram um símbolo do apartheid, aproveitado por extremistas brancos para acicatar receios e odiado pela população negra.
E aqui surge Mandela.

A partir daí vemos como Mandela o conseguiu. Não o conto, porque seria um crime para quem ainda não leu o livro nem viu o filme. Normalmente não queremos que nos contem o fim. Aqui o fim é conhecido, não convém contar é a história maravilhosa que vem antes, onde vemos o poder de uma liderança inspiradora, pacificadora e mobilizadora ao mesmo tempo. Que homem extraordinário é Mandela e como foi o homem certo no momento certo!
Portanto, deixo o recheio por contar e termino voltando às diferenças entre livro e filme. A hollywoodização da história não prejudicou a mensagem central nem a sua beleza. Continua a ser uma história extraordinária, que merece ser contada, num grande filme que merece ser visto. Um dos melhores filmes do ano, sem margem para dúvidas. Mas certas cenas simplesmente não aconteceram. Na maioria dos casos, percebe-se porque foram alteradas. Por exemplo, é mais expressivo no grande écran e mais condicente com o hollywood heroe ver Mandela fazer um discurso “inspirador” que muda a opinião de uma sala cheia de dirigentes negros do que a forma como isso se passou na realidade: Mandela falou com cada um individualmente, até os convencer. Um belo discurso é mais bonito do que a política de bastidores. Mais bonito e certamente mais nobre, na ética de hollywood. Seja como for, é um exemplo de uma alteração que não muda a substância da história.
Há apenas uma mácula. O filme centra-se numa relação especial entre Mandela e o capitão da equipa, François Pienaar. É uma estratégia bastante hollywoodesca. O mestre e o aluno. O super-herói e o fiel ajudante. O líder que convence o céptico. O homem excepcional que leva o common guy a transcender-se.
É pena. Essa relação especial entre Mandela e o capitão dos Boks existiu, mas o filme acaba por ofuscar injustamente os outros construtores da reconciliação. Na verdade, muitos outros tiveram um papel importantíssimo, desde outros jogadores até ao treinador, passando pelo manager, pelo presidente da federação, por vários dirigentes negros e, até, por extremistas progressivamente convertidos à causa de uma democracia multipartidária e multiétnica na África do Sul.
Nota: alterei temporariamente o template para condizer com este post.
5.8.10
Empire
Li este livro em poucos dias, durante as férias. Fiquei vidrado e lia em cada segundinho livre. Conta a História do Império Britânico, desde os primórdios da pirataria até à queda estranhamente previsível e inevitável.
É um livro extraordinário, por vários motivos. Destaco três notas.Primeiro, a escrita.
O autor é um académico reconhecido, com percurso a atravessar universidades de renome. O conteúdo é rigoroso (pelo menos, assim parece a um leigo como eu). No entanto, a escrita não é nada árida mas antes bastante dinâmica, por vezes pontuada com ironia e humor, muitas vezes criando um suspense que nos faz querer ler o que vem mais à frente.
Exemplos? OK, aqui vai um do humor: a certa altura fala de um súbdito de sua majestade que, na Índia, apanhou a sua mulher com outro homem, o que, segundo Ferguson, "o fez perder a sua fé em Deus, já para não falar na mulher". Está bem que é humor britânico suave, mas alguém imagina um Mattoso ou um Hespanha a aplicá-lo num livro de História? (Esclareço apenas que o detalhe é importante, quer porque o senhor veio a ser um dos grandes exploradores de África, quer porque demonstra que nem todos os exploradores iam imbuídos de espírito de crente fervoroso com fins missionários).
Quanto ao suspense, lembrou-me outro estilo de escrita que me era familiar. À medida que ia lendo o livro, reparei que no final de cada capítulo ou secção deixava uma pista que aguçava o apetite para algo que viria mais à frente, como que dizendo: se vais pousar agora o livro, olha que fazes bem em depois voltar a ele, ainda vem aí muita coisa interessante. Esta construção não me era estranha, mas não me lembrei logo de quem se tratava. De repente ocorreu-me: Dan Brown, o do Código Da Vinci! Quando o li, reparei no mesmo truque: no final de cada capítulo, estender uma cenoura para o seguinte. Só nas últimas páginas, nos agradecimentos, percebi que pode ter havido um bom motivo para isso: o autor foi convidado para escrever um documentário em vários episódios para o Channel 4 sobre o Império Britânico e o livro, não sendo o guião do documentário, provavelmente foi beber ao estilo narrativo do género.
Segundo, a visão que nos dá do Império - e como foi diferente do Império Português!
Antes de mais, foi construído e ampliado sobretudo por iniciativa privada. A Índia, jóia da coroa vitoriana, foi conquistada e domada progressivamente por mercenários ao serviço da Companhia das Índias britânica, não ao serviço da coroa. Em África, os diamantes e o ouro levaram o banqueiro Rotschild a "investir" na guerra dos bóeres.
Depois, viveu desde cedo numa tensão entre os colonizadores além-mar, frequentemente impiedosos com os nativos, e os britânicos "em casa", mais inclinados a fazer respeitar os nativos (ainda que geralmente pretendendo civilizá-los à sua maneira). Enquanto uns queriam mão-de-obra submissa, outros queriam estabelecer o "rule of law", o fim da escravatura, a representação política, o chá das cinco, a civilização tal como a viam.
Terceiro, a quase imparcialidade. Ferguson não chega bem a ser imparcial. Percebe-se o entusiasmo e a admiração. Isso não o impede de nos dar "the full picture". Nunca esconde as contradições, os erros, as humilhações infligidas a terceiros, os massacres de nativos, as violações de direitos humanos que hoje consideramos fundamentais.
Mas também não esconde uma certa admiração por essa pequena nação atlântica que acabou por governar um quarto do mundo, com um território onde o sol nunca se punha, e que pelo caminho levou aos 4 cantos do planeta a ideia de democracia parlamentar, de capitalismo liberal (sim, é um ponto positivo, quer queiram quer não), de escolas e universidades de excelência, de administração pública eficaz e incorruptível, de imprensa livre e de justiça estável e confiável. Nem ele, nem eu.