Tenho dois escritores americanos preferidos: John Steinbeck e Ernest Hemingway. Penso que representam duas facetas diferentes da vivência americana no século XX.
O primeiro mais introspectivo, centrado nos conflitos pessoais e sociais, como a pobreza da Depressão em As Vinhas da Ira, a integridade e honestidade em O Inverno do Nosso Descontentamento ou a ganância em A Pérola. É a América excluída do Sonho Americano dos imigrantes que chegam, vêem e vencem.
Hemingway, na maior parte da sua obra, representa a América aventureira, combativa, dos homens e mulheres que construíram uma nação nova e fantástica. Mostra-nos americanos em constante busca de emoções e desafios, mesmo com os perigos e as tristezas que eles possam acarretar: basta ler Por Quem os Sinos Dobram, Um Adeus às Armas ou O Velho e o Mar.
Encontram-se na defesa da liberdade e da democracia, sempre em busca de uma maior dignidade humana. Exemplo disso é o enredo de O Velho e o Mar, que podia ser de qualquer um dos dois - independentemente, claro, dos traços estilísticos que nos dariam obras bem diferentes. O que diriam ambos da América actual, com tantas marcas de intolerância religisoa/moral?
12.5.05
3.5.05
Bloco - de movimento a partido
Há uns tempos previ que o Bloco iria passar por uma prova de fogo. Se começasse a crescer em número de votos, iria enfrentar o desafio de se transformar de pequeno movimento minoritário em partido político tradicional.
Enquanto pequeno movimento, a unidade e coesão é mais fácil. Os objectivos são comuns, a ideologia clara, a coesão forte, as diferenças face aos outros partidos óbvias. Enquanto partido político tradicional, as divergências nos objectivos, nas ideias e nas equipas começam a surgir. E começam a assemelhar-se aos outros partidos.
Como pequeno movimento contra-poder, as ambições individuais andaram escondidas. Agora vão começar a surgir. Quando um grupo de militantes quiser uma coligação com o PS para chegar ao poder numa Câmara Municipal ou no Governo, o circo vai pegar fogo. Será o fim da auto-proclamada superioridade moral do Bloco face aos outros partidos?
Enquanto pequeno movimento, a unidade e coesão é mais fácil. Os objectivos são comuns, a ideologia clara, a coesão forte, as diferenças face aos outros partidos óbvias. Enquanto partido político tradicional, as divergências nos objectivos, nas ideias e nas equipas começam a surgir. E começam a assemelhar-se aos outros partidos.
Como pequeno movimento contra-poder, as ambições individuais andaram escondidas. Agora vão começar a surgir. Quando um grupo de militantes quiser uma coligação com o PS para chegar ao poder numa Câmara Municipal ou no Governo, o circo vai pegar fogo. Será o fim da auto-proclamada superioridade moral do Bloco face aos outros partidos?
Resposta a comentário - Constituição Europeia
O Tratado que institui uma Constituição para a União Europeia é, em si mesmo, relativamente inócuo. Alarga os Direitos Fundamentais já previstos na Convenção Europeia, introduz algumas alterações na configuração estrutural da União, cria o Ministro dos Negócios Estrangeiros europeu mas, no fundamental, não muda por aí além aquilo que é a União hoje em dia.
Para mim, o problema da sua ratificação nos países em que vão ocorrer referendos não é tanto o conteúdo do Tratado mas sobretudo a relação que os cidadãos europeus hoje estabelecem com a União.
Há países em que os seus nacionais vêem a União como algo de positivo, que traz vantagens para a sua nação - e nesses países, em que Portugal se inclui, a ratificação não constituirá problema.
Mas há países em que a União é vista como um conjunto de burocratas e políticos distantes, boa para os países menos ricos pelos fundos que para aí canaliza, mas sem grandes vantagens para os países mais desenvolvidos. Aí a ratificação será um problema. A solução não existe a curto prazo porque depende de uma mudança dessa percepção, criando uma União mais próxima dos cidadãos. Para a França, por exemplo, já é tarde.
Quanto ao nosso referendo, ele acabará por se realizar, em simultâneo com as eleições autárquicas ou depois das eleições presidenciais, não tendo eu grandes dúvidas que o "Sim" vencerá.
Para mim, o problema da sua ratificação nos países em que vão ocorrer referendos não é tanto o conteúdo do Tratado mas sobretudo a relação que os cidadãos europeus hoje estabelecem com a União.
Há países em que os seus nacionais vêem a União como algo de positivo, que traz vantagens para a sua nação - e nesses países, em que Portugal se inclui, a ratificação não constituirá problema.
Mas há países em que a União é vista como um conjunto de burocratas e políticos distantes, boa para os países menos ricos pelos fundos que para aí canaliza, mas sem grandes vantagens para os países mais desenvolvidos. Aí a ratificação será um problema. A solução não existe a curto prazo porque depende de uma mudança dessa percepção, criando uma União mais próxima dos cidadãos. Para a França, por exemplo, já é tarde.
Quanto ao nosso referendo, ele acabará por se realizar, em simultâneo com as eleições autárquicas ou depois das eleições presidenciais, não tendo eu grandes dúvidas que o "Sim" vencerá.
30.4.05
Resposta a e-mail - 3 coisas que nos faltam
De acordo com estudos recentes, a Portugal faltam três "coisas" essenciais:
- mais capital intelectual - a fraca competitividade portuguesa está ligada à falta de investimento em recursos que geram capital estrutural e em activos intangíveis;
- mais globalização - apenas 28% das PME declararam vender fora da UE, um valor abaixo da média europeia e de alguns novos membros;
- e, finalmente, mais empreendedorismo - onde o medo de falhar é superior ao desejo expresso de potenciais empreendedores.
por Jorge Nascimento Rodrigues. (Publicado em parceria com portal executivo .com)
Caro Zé Manel, obrigado pelo texto que me enviaste e cujo resumo surge acima. Não sou Economista, mas acredito que realmente nos faltam estas três coisas. Sobretudo a primeira e a última, porque a segunda será mais fácil para países nas fronteiras da União, como os estudos referidos demonstram (Lituânia, Polónia, Malta, etc.).
Quanto ao capital intelectual, já muito se disse: há que aumentar a qualificação dos trabalhadores portugueses, com mais formação e conhecimentos.
Quanto ao empreendedorismo, a crise económica e as falhas estruturais da nossa organização económica não ajudam. Para além da crise, as empresas portuguesas temem que os seus clientes não paguem, não só pelas quantias que deixam de entrar mas também porque os nossos tribunais não facilitam a sua recuperação. Em Portugal (quase que) compensa ser caloteiro... Portanto é preciso alguma coragem para abrir um novo negócio.
Um grande abraço!
- mais capital intelectual - a fraca competitividade portuguesa está ligada à falta de investimento em recursos que geram capital estrutural e em activos intangíveis;
- mais globalização - apenas 28% das PME declararam vender fora da UE, um valor abaixo da média europeia e de alguns novos membros;
- e, finalmente, mais empreendedorismo - onde o medo de falhar é superior ao desejo expresso de potenciais empreendedores.
por Jorge Nascimento Rodrigues. (Publicado em parceria com portal executivo .com)
Caro Zé Manel, obrigado pelo texto que me enviaste e cujo resumo surge acima. Não sou Economista, mas acredito que realmente nos faltam estas três coisas. Sobretudo a primeira e a última, porque a segunda será mais fácil para países nas fronteiras da União, como os estudos referidos demonstram (Lituânia, Polónia, Malta, etc.).
Quanto ao capital intelectual, já muito se disse: há que aumentar a qualificação dos trabalhadores portugueses, com mais formação e conhecimentos.
Quanto ao empreendedorismo, a crise económica e as falhas estruturais da nossa organização económica não ajudam. Para além da crise, as empresas portuguesas temem que os seus clientes não paguem, não só pelas quantias que deixam de entrar mas também porque os nossos tribunais não facilitam a sua recuperação. Em Portugal (quase que) compensa ser caloteiro... Portanto é preciso alguma coragem para abrir um novo negócio.
Um grande abraço!
25.4.05
25 de Abril
Há um momento que define bem o 25 de Abril. Quando os revoltosos estão no Terreiro do Paço e se aproximam forças fiéis ao regime, o capitão Salgueiro Maia dirige-se-lhes para tentar convencer a aderirem ao golpe. Vai em direcção a essas forças a pé, sozinho e desarmado. À sua frente um conjunto de blindados com poder de fogo suficiente para pôr termo à Revolução. O comandante das forças fiéis ao regime, brigadeiro Junqueira dos Reis, ordena ao alferes Fernando Sottomayor que dispare sobre Salgueiro Maia e sobre os seus homens, o que resultaria inevitavelmente num banho de sangue.
Mas o alferes recusa. Talvez por não querer disparar sobre um homem desarmado, de braços no ar. Talvez por já não acreditar no regime. O comandante, furioso, diz-lhe: "Você já estragou a sua vida!" e manda-o prender. Ordena então a um cabo que substitua o alferes e dispare. O cabo também recusa. Vários militares das forças de Junqueira dos Reis passam-se para o lado dos revoltosos.
O resto já se sabe: o povo adere em massa no Largo do Carmo, já ninguém defende o regime, a ditadura cai - afinal tinha pés de barro.
Aqui sobressai o melhor do 25 de Abril: a coragem, de Salgueiro Maia e de Sottomayor; a vitória da vida e da dignidade humanas sobre a obediência cega a uma autoridade injusta.
Mas o alferes recusa. Talvez por não querer disparar sobre um homem desarmado, de braços no ar. Talvez por já não acreditar no regime. O comandante, furioso, diz-lhe: "Você já estragou a sua vida!" e manda-o prender. Ordena então a um cabo que substitua o alferes e dispare. O cabo também recusa. Vários militares das forças de Junqueira dos Reis passam-se para o lado dos revoltosos.
O resto já se sabe: o povo adere em massa no Largo do Carmo, já ninguém defende o regime, a ditadura cai - afinal tinha pés de barro.
Aqui sobressai o melhor do 25 de Abril: a coragem, de Salgueiro Maia e de Sottomayor; a vitória da vida e da dignidade humanas sobre a obediência cega a uma autoridade injusta.
22.4.05
Espanha, Espanha e Espanha
José Sócrates esteve em Espanha e disse que as três prioridades da política externa portuguesa eram Espanha, Espanha e Espanha.
Espero bem que fosse uma tirada de Relações Públicas para espanhol ver. Não que Espanha não deva ser uma prioridade, sobretudo na diplomacia económica. É importante o apoio a empresas portuguesas que se queiram expandir no país vizinho.
Mas não é aí a mais-valia da nossa diplomacia. Temos tido nos últimos anos uma aposta nas relações privilegiadas com os países da África lusófona, com o Brasil e com o eixo Londres-Washington. Nos dois primeiros casos, somos uma excelente ponte entre a Europa e esses países. No Atlântico Norte, defendemos a nossa presença estratégica na região, vital quando temos uma das maiores Zonas Económicas Exclusivas do Atlântico (graças aos Açores e à Madeira).
Para além dessas apostas, há ainda a Espanha e, claro, a Europa. Assim, num país que adora lamentar-se de si próprio, há que dizer que temos uma influência diplomática que mais nenhum país da nossa dimensão tem.
Estas orientações estratégicas do nosso país têm sido comuns aos governos social-democratas e socialistas. Esperemos que assim continue. Para não nos limitarmos à Europa. Nem, muito menos, à Península Ibérica.
Espero bem que fosse uma tirada de Relações Públicas para espanhol ver. Não que Espanha não deva ser uma prioridade, sobretudo na diplomacia económica. É importante o apoio a empresas portuguesas que se queiram expandir no país vizinho.
Mas não é aí a mais-valia da nossa diplomacia. Temos tido nos últimos anos uma aposta nas relações privilegiadas com os países da África lusófona, com o Brasil e com o eixo Londres-Washington. Nos dois primeiros casos, somos uma excelente ponte entre a Europa e esses países. No Atlântico Norte, defendemos a nossa presença estratégica na região, vital quando temos uma das maiores Zonas Económicas Exclusivas do Atlântico (graças aos Açores e à Madeira).
Para além dessas apostas, há ainda a Espanha e, claro, a Europa. Assim, num país que adora lamentar-se de si próprio, há que dizer que temos uma influência diplomática que mais nenhum país da nossa dimensão tem.
Estas orientações estratégicas do nosso país têm sido comuns aos governos social-democratas e socialistas. Esperemos que assim continue. Para não nos limitarmos à Europa. Nem, muito menos, à Península Ibérica.
Santana, Carmona e Cavaco - parte II
É oficial. Carmona Rodrigues será o candidato do PSD à Câmara de Lisboa. Conseguiu fazer a Santana nas eleições para Lisboa o que Santana quis fazer a Cavaco nas eleições presidenciais. Substituir o candidato "natural".
Em ambos os casos, nada de muito dignificante.
Em ambos os casos, nada de muito dignificante.
16.4.05
Resposta a comentário - M. Mendes e os barões
Pois, falta carisma a Marques Mendes. Isso é bem visível. Como escrevi noutro post, o novo líder não entusiasma por aí além.
Mas não nos esqueçamos de duas coisas: primeiro, que mais vale um líder sem carisma mas com ideias certas para o país (como Mendes tem); segundo, que o carisma vem sobretudo depois do sucesso e não antes.
Ter ganho o Congresso não deu especial carisma a Marques Mendes - o que diz bem do estado do PSD...
Mas se ganhar eleições legislativas, é automático. Foi o que aconteceu a Aznar, Kohl e tantos outros.
Concordo com a segunda parte: até ganhar as legislativas, os barões vão andar por aí.
Mas não nos esqueçamos de duas coisas: primeiro, que mais vale um líder sem carisma mas com ideias certas para o país (como Mendes tem); segundo, que o carisma vem sobretudo depois do sucesso e não antes.
Ter ganho o Congresso não deu especial carisma a Marques Mendes - o que diz bem do estado do PSD...
Mas se ganhar eleições legislativas, é automático. Foi o que aconteceu a Aznar, Kohl e tantos outros.
Concordo com a segunda parte: até ganhar as legislativas, os barões vão andar por aí.
Resposta a comentário - paridade homens/mulheres
Acredito que as mulheres podem ter um papel mais relevante na política. Mas tenho a certeza que só depende delas.
1. Para ter um papel na política há que participar e, sobretudo, organizar-se. Qualquer grupo que queira esse papel tem que organizar-se e reclamá-lo. O resto são histórias.
2. Quotas para mulheres não são solução, como não são solução para nenhum outro grupo sócio-demográfico. Ou alguém defende quotas para transmontanos e algarvios, para jovens e idosos, para hetero e homossexuais, para católicos e não-católicos?
Claro que para haver liberdade tem que haver igualdade de oportunidades. Se houver algo que limite essa igualdade de oportunidades entre homens e mulheres, há que mudar. Sinceramente não vejo é o quê.
Dito isto, orgulho-me de ter presidido a uma Comissão Política da JSD/Litoral com mais mulheres que homens. E correu muito bem.
1. Para ter um papel na política há que participar e, sobretudo, organizar-se. Qualquer grupo que queira esse papel tem que organizar-se e reclamá-lo. O resto são histórias.
2. Quotas para mulheres não são solução, como não são solução para nenhum outro grupo sócio-demográfico. Ou alguém defende quotas para transmontanos e algarvios, para jovens e idosos, para hetero e homossexuais, para católicos e não-católicos?
Claro que para haver liberdade tem que haver igualdade de oportunidades. Se houver algo que limite essa igualdade de oportunidades entre homens e mulheres, há que mudar. Sinceramente não vejo é o quê.
Dito isto, orgulho-me de ter presidido a uma Comissão Política da JSD/Litoral com mais mulheres que homens. E correu muito bem.
Santana, Carmona e Cavaco
Carmona Rodrigues disponibilizou-se para ser o candidato do PSD à Câmara de Lisboa. De certa forma fez a Santana Lopes o que este fez a Cavaco Silva: todos julgavam que Cavaco era o candidato natural às presidenciais, mas eis que Santana veio dizer "atenção, que eu sou uma boa alternativa". Entretanto Santana foi para primeiro-ministro, perdeu as eleições, voltou à Câmara, há um novo líder no PSD e essa alternativa deixou de o ser. Mas agora Carmona fê-lo provar da sua própria táctica...
Vejo 3 motivações possíveis para a atitude de Carmona Rodrigues:
1. Motivação unicamente pessoal: querendo ser o candidato e sem falar com ninguém, decide disponibilizar-se mesmo sem ter certezas de eventuais apoios dentro do PSD; obviamente, esta é a menos provável;
2. Incitado por Santana: com medo de não ser o escolhido pela nova direcção do PSD, Santana poderá ter pedido a Carmona Rodrigues para disponibilizar-se, tipo "se não for eu, que sejas tu"; mas também me parece pouco provável;
3. Incitado pelos "mendistas": não querendo Santana como candidato, os mendistas podem ter incentivado Carmona a avançar, para facilitar a tarefa a Marques Mendes na hora de anunciar que Santana não é o seu candidato.
A 3ª hipótese explicaria os discursos de Santana no Congresso, avisando que ainda não o podem simplesmente excluir do partido. Marques Mendes vs. Santana, um braço-de-ferro que vai dar que falar até ao Verão. Mais do que Marques Mendes vs. Menezes. Isso será depois.
Vejo 3 motivações possíveis para a atitude de Carmona Rodrigues:
1. Motivação unicamente pessoal: querendo ser o candidato e sem falar com ninguém, decide disponibilizar-se mesmo sem ter certezas de eventuais apoios dentro do PSD; obviamente, esta é a menos provável;
2. Incitado por Santana: com medo de não ser o escolhido pela nova direcção do PSD, Santana poderá ter pedido a Carmona Rodrigues para disponibilizar-se, tipo "se não for eu, que sejas tu"; mas também me parece pouco provável;
3. Incitado pelos "mendistas": não querendo Santana como candidato, os mendistas podem ter incentivado Carmona a avançar, para facilitar a tarefa a Marques Mendes na hora de anunciar que Santana não é o seu candidato.
A 3ª hipótese explicaria os discursos de Santana no Congresso, avisando que ainda não o podem simplesmente excluir do partido. Marques Mendes vs. Santana, um braço-de-ferro que vai dar que falar até ao Verão. Mais do que Marques Mendes vs. Menezes. Isso será depois.
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