Não sou grande apreciador de poesia, nomeadamente da poesia culturalmente correcta - isto é, venerada pelo establishment cultural português. Acho que muita da poesia mais louvada no nosso país é aquela feita por poetas sem talento excepcional mas com o condão de serem excelentes relações públicas perante esse establishment. A ideia que dão é a de que bastam umas palavras impenetráveis (tipo "Húmus do tempo vertido, flor que dispersa em medida voraz, avenidas de medo no crepúsculo do teu seio") e umas tiradas apropriadas nos salões certos.
Mas depois há aqueles que o establishment não pode ignorar e que eu não posso deixar de admirar. Aqueles cuja poesia é límpida e simples, sem nunca ser banal. Pessoa, Régio, Eugénio ou... Sophia.
Sophia de Mello Breyner Andresen escreveu alguns dos meus poemas preferidos, com palavras breves, despretenciosas e certeiras, directas ao sentimento que eu gostava de saber exprimir de forma tão superior. Deixo apenas alguns curtos exemplos, que este não é um blog de poesia:

Mar
Quando eu morrer voltarei para buscar os momentos que não vivi junto ao mar.
Ausência
Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua
Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.
As Ondas
As ondas quebravam uma a uma
Eu estava só com a areia e com a espuma
Do mar que cantava só para mim.
E, claro, o poema que me fez escrever este post. O poema que melhor define o 25 de Abril. Já sei que hoje ele aparece em mil e um blogs e sites e jornais, mas não podia deixar de o pôr aqui também:
25 de Abril
Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo.
Bom (resto de) Feriado!