23.2.06

Pardon?

A propósito de meter expressões estrangeiras nas minhas frases, lembrei-me que o meu pai não tinha tanta queda para as línguas. No inglês safava-se bem, mas o espanhol transformava-se em portunhol - mas também sem o portunhol nem parece que somos independentes - e o francês... bem, o francês... enfim, avaliem vocês mesmos.
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Uma vez ele queria dizer "agora não, eu vou depois" em francês e saiu-lhe o seguinte: "alors non, je vais depuis". O som é parecido ao português mas infelizmente significa "nesse caso não, eu vou desde"... Imaginem a cara do franciú a perguntar: pardon? E o meu pai a repetir, convicto: "alors non, je vais depuis!"
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Mas no que toca a traduções, nada como aquela cena do filme dos Goonies: empregada mexicana nova e a dona de casa pede ao Mouth para traduzir.
- Aqui os lençóis, ali toalhas, ...
E ele, tranquilo:
- Aquí la cocaína, allí la heroína... jamás mesclar, porqué si no!
E a empregada, em pânico:
- Es una casa de locos!
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E pronto, esta expressão ficou. Sempre que havia alguma confusão em casa, eu ou um dos meus irmãos dizia logo: Es una casa de locos! O facto do culpado ser provavelmente um de nós era um mero pormenor...

19.2.06

Nas últimas imagens...

... do último episódio de Seinfeld puseram esta música de fundo. I hope you had the time of your life. Se eles não tiveram a fazer, tivemos nós a ver. TV time, of course.

A minha avó e João Carlos Espada

Sábado, fim da tarde: a minha avó, a um mês de fazer 90 anos, a ler a crónica do João Carlos Espada no Expresso. Ah, grande avó!
Nota aos meus amigos de Esquerda: não, não fui eu que a obriguei.

16.2.06

Tripeiro nato

Fui fazer um teste de tripeirismo e o resultado foi este:
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Tripeiro nato
Você é um homem/mulher do Norte! Não há nada que lhe escape: que ninguém pense em abordá-lo com falinhas mansas sem um cimbalino e uma francesinha na mão! Para si, tudo o que não esteja num raio de cinco quilómetros a volta da Torre dos Clérigos é paisagem. Aprovado com distinção neste teste de Portualidade já pode ir contando com um convite para ser o rei/rainha da noite de S. João.
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O mais engraçado é que o teste obriga a saber as expressões correspondentes no dialecto alfacinha. Por exemplo, para além de saber o que é um cimbalino ou um lanche, é preciso saber o que é uma bica ou uma merendinha para acertar nas perguntas. Portanto não é só um teste de portualidade ou tripeirismo, é também de alfacinhismo (acho que acabei de inventar uma palavra) ou de ambos combinados. O que me valeu foi que eu já tive a minha dose de Lisboa (cidade de que gosto, diga-se). Uma vez pedi um Napoleão numa confeitaria (perdão, pastelaria) e a senhora ficou a olhar para mim. Depois apontei para o bolo e ela chamou-lhe outra coisa qualquer que já me esqueci. E quando descobri que em Lisboa não sabiam o que era um trengo? Isso é que foi: "Eh, pá, parabéns, hoje tás.. bem... totalmente trenga!" (com o meu melhor sorriso).

Quem será a mãe?

"O Prof. Galopim de Carvalho, também chamado pai dos dinossauros, [...]".
Ouvido na TSF, 15.02.2006

15.2.06

MST premiado

O livro "Equador", de Miguel Sousa Tavares, conquistou em Itália o prémio literário Grinzane Cavour 2006. O prémio é considerado um dos quatro mais importantes em Itália e o mais prestigiado para a literatura estrangeira publicada no país.A escolha dos vencedores é decidida por um duplo sistema: a selecção feita pelos críticos (escritores, jornalistas culturais e críticos literários) e o voto popular, constituído por leitores entre os estudantes de italiano de várias instituições nacionais e estrangeiras (Berlim, Bruxelas, Paris, Moscovo, Praga, Estocolmo, Tóquio, Cairo, Buenos Aires e Salamanca).
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Há uns tempos perguntaram a MST numa entrevista como tinha sido a reacção dos críticos literários à incursão do jornalista pela ficção. Ele sorriu e disse que se definia como contador de histórias (salvo erro), para não incomodar ninguém com uma auto-definição como escritor... E notou que nunca tinha sido convidado para os 3 ou 4 programas televisivos de literatura existentes. Será que agora, com o “reconhecimento internacional”, o vão convidar? Seria interessante. E revelador.

T-shirts

«O ministro das Reformas do Governo italiano, Roberto Calderoli, mandou fazer "t-shirts" com reproduções das polémicas caricaturas sobre Maomé publicadas por alguns jornais europeus.

"Mandei confeccionar 't-shirts' com as caricaturas contestadas pelo Islão e vou usá-las a partir de hoje", afirmou Calderoli em declarações à agência noticiosa italiana Ansa.O governante faz parte da Liga do Norte, partido que integra a coligação governamental do Executivo presidido por Silvio Berlusconi e que é conhecido pelas suas tomadas de posição xenófobas. "Estou pronto para oferecê-las a quem as pedir", acrescentou Calderoli, recusando que o seu gesto possa ser entendido como uma provocação.
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"É preciso acabar com esta fábula de que é necessário dialogar com estas pessoas. Querem humilhar-nos. É tudo", afirmou o governante. [...]
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"É necessário pôr fim a esta tendência de baixar as calças e às distinções hipócritas entre Islão terrorista e Islão pacífico", concluiu Calderoli.»


in Público online, 15.02.2006

No post O grande problema de hoje - parte IV disse que o Ocidente devia usar firmeza e inteligência. Adivinhem o que falta aqui...

14.2.06

Manias

«Cada bloguista participante tem de enumerar cinco manias suas, hábitos muito pessoais que os diferenciem do comum dos mortais. E além de dar ao público conhecimento dessas particularidades, tem de escolher cinco outros bloguistas para entrarem, igualmente, no jogo, não se esquecendo de deixar nos respectivos blogues aviso do "recrutamento". Além disso, cada participante deve reproduzir este "regulamento" no seu blogue.»
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O Ricardo do Filho do 25 de Abril passou-me esta corrente. Não gosto nada de correntes, mas esta até achei piada. E acorrentado revelo:
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1. Mapas. Adoro mapas, de países, cidades, tudo. Adoro mapas e atlas antigos. Tenho obras sobre a evolução dos mapas políticos da Europa. Em miúdo devorava Atlas e globos (salvo seja). E ainda hoje não percebo como é que as pessoas nunca ouviram falar no enclave de Kaliningrado (caramba, aquilo já deu uma guerra e até pode dar outra de novo).
Um mapa é a primeira coisa que arranjo quando vou viajar, de preferência ainda cá ou então mal chego ao destino. Um excelente site para programar um itinerário, com direito a mapas de estradas e ruas pormenorizados, indicando pontos de referência, é o do Automóvel Clube britânico (procurem o advanced route planner). E até tem os sentidos de trânsito, o que me teria dado bastante jeito daquela vez que entrei numa avenida de três faixas... todas em sentido contrário, infelizmente! Que querem, pelo mapa fazia sentido virar ali!...
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2. Tenho uma maneira especial de segurar um livro ou jornal quando estou a ler. Seguro por cima, com o cotovelo apoiado no joelho ou na coxa, assim:
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3. Tenho a mania de fazer caretas (involuntárias) quando estou a pensar compenetradamente.
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4. Tenho o tique de estar sempre a bater com os nós dos dedos nos dentes (sim, leram bem).
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5. Tenho a mania de meter expressões em línguas estrangeiras no meio do que digo. Preferidas: I rest my case, no way, you're out! (adoro esta), grazie, ah non je pèse! (esta é private), private, etc., etc., etc.
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Caro Ricardo, isto não se faz... Mas como diz o ditado, faz aos outros o que não queiras que te façam a ti. Hm, não é bem assim, pois não? Enfim, passo a corrente a:
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1. Freddy, da Zona Franca
2. Armando, da Fábrica
3. Carlos, do Micróbio
5. António A. Antunes, do Saco Cheio Não Dobra
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Pensei em passar a alguns outros bloggers interessantes, mas os seus blogs não dão muito para este tipo de coisa. Mas quem quiser, força!!! Por exemplo, gladiadores, lagoa_azul, meninamarota, workbuy, o raio, cp, i, vasco neves, mixtu, nina, poesia portuguesa, ...

11.2.06

I rest my case

«Seis das doze caricaturas do profeta Maomé foram publicadas no Egipto, em Outubro, sem levantar a menor polémica, afirmou ontem o embaixador dinamarquês no Cairo. A reacção surgiu dois meses depois, quando os líderes muçulmanos reunidos num encontro da Organização da Conferência Islâmica (OCI) coordenaram estratégias e "cristalizaram" a crise, revelou o jornal The New York Times. Só então a revolta começou a sair à rua, com o apoio de vários governos.
[...]
Esta informação ajuda a sustentar a tese de que existe uma forte manipulação política por detrás das manifestações a que se tem vindo a assistir em vários países.
[...]
Para Sari Hanafi, da Universidade Americana de Beirute, os regimes árabes que estavam ressentidos com a pressão ocidental de democratização viram aqui uma oportunidade. As manifestações que se seguiram "desencadearam uma reacção visceral - claro que se sentiram ofendidos - e depois tínhamos regimes a tirar partido, a dizer: "Vejam, é desta democracia que eles falam"", comentou.»

In Público online, hoje.

10.2.06

O grande problema de hoje - parte IV

Nem de propósito, o tipo de reacção que o Ocidente deve adoptar face ao extremismo islâmico tem estado em cima da mesa nos últimos dias.

A questão dos cartoons dinamarqueses liga-se, claro, à do Hamas, porque refere-se à posição dos ocidentais face ao extremismo e ao terrorismo religiosos.

E para mim a posição só pode ser uma: firmeza inteligente. Firmeza nos princípios fundamentais, inteligência na definição táctica.

A firmeza nos princípios fundamentais é imprescindível. Não podemos sacrificar as nossas liberdades à segurança (ou melhor, à ameaça do seu fim às mãos do terrorismo). Não podemos, muito menos, envergonharmo-nos delas. A Dinamarca é dos países mais tolerantes do mundo, que aceita a diferença e respeita a opinião contrária, que protege os desfavorecidos e acolhe os imigrantes, que acredita na liberdade de expressão e rejeita a ingerência do poder político nas esferas que lhe estão proibidas na Lei, que protege o indivíduo face ao abuso dos colectivos e rejeita o totalitarismo, tudo conforme as normas básicas de um Estado de Direito que se orgulha ser. E que todos nos devemos orgulhar de apoiar.

A Dinamarca é a liberdade. Imperfeita, melhorável, mas a liberdade. E a dignidade da pessoa humana.

Ora, o que são os extremistas? Sem rodeios: são o Totalitarismo, a mundividência cuja afirmação exige a negação das demais mundividências, a verdade única de auto-proclamada “vanguarda moral” do povo islâmico.

Naturalmente, o confronto com tal totalitarismo assusta-nos. Já teve etapas sangrentas. Queremos evitá-lo. Esperamos evitá-lo.

O problema é que o confronto interessa aos extremistas. O pior que pode acontecer aos extremistas é a dita normalidade democrática. Eles vivem do ódio e da turbulência, não do respeito democrático nem da tranquilidade. E por isso agitarão as massas sempre que se sentirem ameaçados.

Ora, o AKP rejeitou o extremismo na Turquia depois de ter chegado ao poder, a Fatah rejeitou o extremismo na Palestina depois de ter chegado ao poder, o Hamas começou já a ser pressionado (interna e externamente, como referi na parte III) a seguir idêntico caminho. No Afeganistão e no Iraque houve eleições democráticas. E também no Egipto e na Arábia Saudita (onde não houve invasão americana). No Líbano renasce a esperança.

Estas são boas notícias para nós – mas péssimas para os extremistas. É aqui, portanto, que vamos ser postos à prova. Nisto:

- Mantermo-nos firmes na defesa dos nossos valores de liberdade, democracia e dignidade da pessoa humana;
- Persistir nos esforços de democratização, estabilização e desenvolvimento do Médio Oriente, com a inteligência táctica de aceitar vitórias parciais mas progressivas em direcção ao objectivo final ;
- Pressionar israelitas e palestinianos para um acordo, aplaudindo cada sucesso, tendo cuidado para não vexar nem humilhar, pressionando para o evitamento de conflitos, lembrando a pressão e a esperança dos respectivos povos e do mundo.

No caso concreto dos cartoons, é preciso portanto que:

- Se repudie toda a violência resultante;
- Se rejeite como possível solução a ingerência de um governo na delimitação directa da liberdade de expressão, à margem do estipulado prévia e taxativamente na Lei;
- Se admita que os cartoons são de mau-gosto e susceptíveis de ofender os muçulmanos;
- Se afirme, no entanto, que o reconhecimento da liberdade passa, justamente, por respeitar aquilo com o qual à partida não concordamos.
- Voltando ao início, se insista que estas são as formas de organização das nossas sociedades pelas quais nos regemos e nos continuaremos a reger.

Firmeza nos princípios, inteligência nas tácticas. O nosso Ministro dos Negócios Estrangeiros não percebeu nem uma nem outra. Pior, subverteu-as. No que deveria ser firme, foi abaixo de mole – foi omisso, inexistente. Não ter feito uma única referência à inaceitável violência dos extremistas é imperdoável. No que deveria ser inteligente, jogando com as margens tácticas para cumprir a estratégia principal, foi inepto – enveredou por um suposto apaziguamento que soou inevitavelmente a cedência, sem sequer a mínima contracedência da outra parte. Foi Chamberlain sem sequer a aparência de Munique.