16.4.05

Resposta a comentário - paridade homens/mulheres

Acredito que as mulheres podem ter um papel mais relevante na política. Mas tenho a certeza que só depende delas.

1. Para ter um papel na política há que participar e, sobretudo, organizar-se. Qualquer grupo que queira esse papel tem que organizar-se e reclamá-lo. O resto são histórias.

2. Quotas para mulheres não são solução, como não são solução para nenhum outro grupo sócio-demográfico. Ou alguém defende quotas para transmontanos e algarvios, para jovens e idosos, para hetero e homossexuais, para católicos e não-católicos?

Claro que para haver liberdade tem que haver igualdade de oportunidades. Se houver algo que limite essa igualdade de oportunidades entre homens e mulheres, há que mudar. Sinceramente não vejo é o quê.

Dito isto, orgulho-me de ter presidido a uma Comissão Política da JSD/Litoral com mais mulheres que homens. E correu muito bem.

Santana, Carmona e Cavaco

Carmona Rodrigues disponibilizou-se para ser o candidato do PSD à Câmara de Lisboa. De certa forma fez a Santana Lopes o que este fez a Cavaco Silva: todos julgavam que Cavaco era o candidato natural às presidenciais, mas eis que Santana veio dizer "atenção, que eu sou uma boa alternativa". Entretanto Santana foi para primeiro-ministro, perdeu as eleições, voltou à Câmara, há um novo líder no PSD e essa alternativa deixou de o ser. Mas agora Carmona fê-lo provar da sua própria táctica...

Vejo 3 motivações possíveis para a atitude de Carmona Rodrigues:

1. Motivação unicamente pessoal: querendo ser o candidato e sem falar com ninguém, decide disponibilizar-se mesmo sem ter certezas de eventuais apoios dentro do PSD; obviamente, esta é a menos provável;


2. Incitado por Santana: com medo de não ser o escolhido pela nova direcção do PSD, Santana poderá ter pedido a Carmona Rodrigues para disponibilizar-se, tipo "se não for eu, que sejas tu"; mas também me parece pouco provável;

3. Incitado pelos "mendistas": não querendo Santana como candidato, os mendistas podem ter incentivado Carmona a avançar, para facilitar a tarefa a Marques Mendes na hora de anunciar que Santana não é o seu candidato.

A 3ª hipótese explicaria os discursos de Santana no Congresso, avisando que ainda não o podem simplesmente excluir do partido. Marques Mendes vs. Santana, um braço-de-ferro que vai dar que falar até ao Verão. Mais do que Marques Mendes vs. Menezes. Isso será depois.

13.4.05

Congresso PSD V - Borges

António Borges não será líder do partido nos próximos 10 anos. Primeiro será Vice-Presidente do PSD. Depois, se entretanto o PSD chegar ao Governo, será Ministro. Só feito esse tirocínio partidário e governativo poderá ter esperanças de presidir ao PSD. Dependendo, claro está, do seu desempenho nesse mesmo tirocínio.

Neste Congresso, fez o que lhe convinha. Sem afrontar ninguém, quis afirmar-se como defensor de ideias (mais liberais que o normal no PSD, diga-se), de uma forma calma e credível. Para marcar pontos para o futuro. E conseguiu-o.

Congresso PSD IV - o 1º discurso de Santana

Confesso que não ouvi o 2º discurso de Santana Lopes. Estava fora do pavilhão. Mas ouvi o 1º, na sexta-feira.

Foi um discurso com duas componentes: o que me fizeram, sobretudo cá dentro, não se faz; mas aguardem-me, que ainda não estou acabado.

Quanto à primeira parte, teve alguma razão. Mas o ataque a Cavaco foi algo injusto. Cavaco nunca disse que queria uma maioria absoluta do PS. Disse que preferia as maiorias absolutas às relativas - quem discorda? A imprensa deturpou as suas palavras: Cavaco prefere as maiorias absolutas; só o PS está em condições de a obter; logo, Cavaco quis dizer que prefere uma maioria absoluta do PS. No mínimo, abusivo. Nada a que a imprensa portuguesa não nos tenha habituado.

Já o ataque a Rui Rio e Aguiar-Branco foi inteiramente merecido. É inadmissível que um dirigente do partido venha, a uns dias das eleições, disponibilizar-se para a liderança, dando indirectamente as eleições como perdidas. Disse-o numa assembleia do PSD/Porto. E mantenho.

Quanto à segunda parte, a dúvida é de todos: o que fará Santana agora? Ninguém sabe, incluindo o próprio.

Congresso PSD III - Santana

Santana deu-me pena. Sobretudo pena. Sente-se perseguido injustamente. Não aceitará nunca sair da política. Vive dela, com ela, para ela. Não se vê a si próprio sem ela.

Há duas opiniões extremas sobre Santana.

A mais negativa vê-o sem capacidades para ser líder político. Considera as suas vitórias como um bluff que foi finalmente desmascarado quando assumiu a presidência de Lisboa e, mais ainda, quando teve de liderar o Governo. Aí, segundo essa opinião, revelou-se finalmente o político demagógico, instável e errático, com consequências péssimas para os respectivos governados.

A mais positiva vê-o como um líder corajoso e incómodo, demasiado diferente das habituais elites políticas - e, por esse motivo, constantemente perseguido. Para essa opinião, nunca permitiram a Santana mostrar o que vale - desdenharam as conquistas e exageraram os erros. Moveram-lhe perseguição feroz e ininterrupta.

Não é para equilibrar, mas penso sinceramente que nenhuma opinião é 100% certeira. A verdade está algures no meio.

Não me venham com histórias: a Santana moveram, realmente, uma perseguição inédita. Mas ele não mostrou capacidades para lidar eficazmente com ela.

De fora vieram constantemente acusações de agitação e instabilidade - o problema é que essas acusações criaram mesmo essa agitação e instabilidade. Induzidas ou não, elas existiram. Seria preciso alguém muito forte, consistente e metódico para as ultrapassar. E aí Santana falhou.

Congresso PSD II - Menezes

Luís Filipe Menezes teve um bom Congresso. Capitalizou descontentes e indecisos. Apelou às bases, via coração. Mas nunca foi solução.

Após o primeiro discurso, viu-se para o que ia. No final desse discurso, citou nomes sem fim de portugueses anónimos, autoproclamando-se o seu defensor. As bases poderiam contar com ele porque ele estaria próximo das bases. E dos portugueses. Bem mais próximo que Marques Mendes, com a sua imagem de distância fria.

A estratégia resultou. Teve um resultado que lhe permite acalentar esperanças de um dia ser líder. A próxima eleição do presidente do partido, em Congresso ou em eleições directas, vai ser muito interessante. Resistirá o partido às promessas?

Há algo que me faz desconfiar de Menezes. Há 2 anos deu uma entrevista bombástica, por muitos já esquecida (porque essas entrevistas nunca são levadas muito a sério), dizendo que seria candidato à Câmara do Porto com ou sem o apoio do PSD. Passados alguns meses disse que Rui Rio não deveria ser o candidato. Depois disse o contrário, que deveria. Mais recentemente disse que Rio seria o candidato se assim o quisesse, embora considerasse que não o deveria ser. No Congresso de Barcelos disse que não seria candidato à Câmara de Gaia. Poucas semanas depois, a bem do partido e da sua união, afirmou que estava disponível para o ser.

Com todas estas afirmações ganhou manchetes e protagonismos. A maioria dos portugueses, que acompanha mais ou menos desinteressadamente a política, esquece estas contradições rapidamente. Mas que significam elas? O que podemos realmente esperar de Menezes?

Congresso PSD I - o novo líder

No passado fim-de-semana o PSD elegeu um novo líder. Um líder totalmente oposto ao anterior, para o bem e para o mal.

Para o mal porque falta a Marques Mendes um discurso que entusiasme o partido e o país. Onde Santana era emotivo, Marques Mendes é cerebral. Todas as palavras são medidas, certeiras - mas banais.

Para o bem, porque Marques Mendes transmite uma imagem de segurança. Onde Santana era instável, Marques Mendes é credível.

Em ambos pontua a coragem. Bem precisa é - porque geralmente o PS tem muito pouca.

7.4.05

Hospitais SA

Todos sabemos que a gestão pública de grandes unidades é difícil e, normalmente, ineficiente. Nos hospitais, um modelo de gestão mais próximo do modelo das empresas privadas estava a ser experimentado em alguns. Embora ainda houvesse muito a melhorar, a experiência estava a correr bem.

A Esquerda, sobretudo a mais radical (BE, PCP), alertou logo: se não é público, não presta. Começou logo a lançar o medo da gestão privada, contra o povo, interessada apenas no lucro, etc. O PS sabe que não é assim. Sabe que o modelo tradicional não é mais possível nos dias de hoje. Sabe que o modelo de gestão privado é o futuro. Seja através de SAs de capital público, de algumas privatizações, de um regime semelhante ao das concessões ou outro. Tudo está em aberto (daí as experiências do anterior governo, que admitia ser necessário experimentar para ver qual a melhor solução).

Não querendo ser apelidado de Direita pelo BE e pelo PCP, o Governo encontrou uma solução fantástica: acabar com os Hospitais SA, retorná-los ao sector público puro e duro, mas dotá-los de um modelo de gestão próximo do privado.

É querer mudar sem mudar. Como é óbvio, isso não é possível. Tudo vai ficar na mesma. Os lóbis agradecem.

Medicamentos de venda (pouco) livre

Primeira medida do governo Sócrates: medicamentos de venda livre nos supermercados. Parecia uma boa medida. Mas passados uns dias, depois das pressões dos farmacêuticos, já não era bem assim. Afinal os medicamentos não vão estar propriamente nas prateleiras, ao alcance directo do consumidor. Antes vão estar fora desse alcance, em locais próprios, estando lá um farmacêutico.

Sempre que fui a uma farmácia comprar aspirinas ou afins, nunca o farmacêutico me perguntou para que as queria.

Enfim, mais um compromisso socialista, certamente resultado de um amplo "diálogo" com os agentes interessados (leia-se, lóbis). O regresso do guterrismo?

Já agora, para quando a liberalização das farmácias?

5.4.05

Bloco de Esquerda

Táctica do Bloco: faz campanha sobre "causas" (aborto, retirada da GNR do Iraque, moralização da vida política). Os media adoram, a mensagem passa para a opinião pública, mostram-se fortes, decididos, diferentes e irreverentes. Causam simpatia entre quem quer algo de novo. Crescem eleitoralmente.

O problema é quando se lê o programa eleitoral do Bloco ou as suas "Teses Políticas". Nomeadamente na área económica. 90% dos que votaram Bloco nas últimas eleições não devem conhecer as suas políticas económicas. Querem saber o que eles defendem?

Defendem uma "presença estratégica determinante" do sector público, "invertendo as privatizações" nas seguintes áreas: energia, água, transportes, comunicações, sectores financeiro e segurador!

Já li e reli os textos disponíveis no site do Bloco. E não encontrei nada que me fizesse pensar o contrário disto: inverter privatizações significa renacionalizar; querem renacionalizar empresas como Bancos, companhias de seguros, Portugal Telecom, CTT, Galp, etc, etc, etc. Por favor, alguém me diga (e prove) que eu interpretei mal.

É que isto é só um novo 11 de Março. É só o contrário de toda a tendência mundial. É só a melhor receita para a confiança dos agentes económicos cair a pique. É só o melhor meio para afugentar o investimento estrangeiro.

Disto não fala o Bloco. Fala de causas isoladas. Esconde as políticas de base. Deus nos livre de chegar ao poder...