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14.12.10

Carlucci vs. Kissinger

Portugal esteve poucas vezes sob os olhares do mundo. Devemos ter despertado algum interesse na Europa e no Norte de África quando tentávamos empurrar os mouros d'aquém mar para além mar, acrescentámos o olhar dos indianos e dos árabes quando desviámos a rota das especiarias para o Cabo da Boa Esperança e concentrámos a atenção (por uns 3 ou 4 dias) dos impérios de há 100 anos quando assassinámos brutalmente el-Rei e o Príncipe herdeiro.
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E, claro, tivemos o PREC. O triângulo inamoroso que foi a luta entre comunistas, esquerdistas radicais e democratas pró-ocidentais pelo futuro de Portugal viria a apaixonar e preocupar o mundo político de então.
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Os Estados Unidos, obviamente, acompanhavam de perto a situação. Tudo o que menos queriam era um regime comunista na Europa Ocidental, que eventualmente contagiasse as tentativas espanhola e grega de transição para a democracia e ameaçasse pressionar as democracias de Itália e França, que tinham fortes partidos comunistas. Os EUA pura e simplesmente não podiam dar-se ao luxo de Portugal ser para a Europa do Sul o que Cuba fora para a América Latina. Este era o grande receio do Secretário de Estado Kissinger.
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Por isso, quando a revolução portuguesa começou a acelerar, trocaram de Embaixador, indo buscar Frank Carlucci. Carlucci tinha duas vantagens: era um diplomata inteligente, astuto e experiente em revoluções (e, provavelmente, em colaborações estreitas com a CIA); e era amigo pessoal de Donald Rumsfeld (sim, esse mesmo), que na altura era Chefe do Gabinete do Presidente Gerald Ford. Este último pormenor viria a ser crucial.
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Kissinger tinha uma visão mais distante. Se Portugal era importante, não era propriamente a única coisa na cabeça dele. Guerra fria, Vietname, ameaça nuclear, tudo estava em cima da mesa. Além disso, Kissinger era um académico muito conhecedor da história da diplomacia mundial, que portanto tinha alguma tendência para ver a situação portuguesa à luz da história da expansão comunista recente e das teorias político-diplomáticas que acreditava explicarem a sucessão dos acontecimentos.
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Carlucci estava no terreno e era um homem "do terreno". Sabia os nomes dos protagonistas, estava bem informado, geria bem as relações com os democratas pró-ocidentais (PS, PSD e CDS, basicamente). Sabia que a situação em Portugal era complexa mas que provavelmente não iria descambar para o comunismo, se as coisas fossem bem geridas.
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Para Kissinger, isto era insuficiente. Para ele, o Embaixador deveria ser mais duro e conseguir a clara expulsão dos comunistas do poder em Portugal. Não gerir a situação, intervir na situação. Quando isso se revelou impossível, Kissinger adoptou a tese da "vacina". Portugal parecia um caso perdido que ou se encaminhava para o comunismo ou para um regime de ditadura esquerdista utópica, porventura não-alinhada. Portanto deveria ser marginalizado, expulso da Nato, abandonado financeiramente. Ao tornar-se um país pobre, periférico e isolado, Portugal seria a vacina contra o comunismo no resto da Europa do Sul.
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Carlucci considerava Portugal tudo menos perdido. Colocava os excessos revolucionários em perspectiva e acreditava que a maioria da população estava contra os lunáticos do PREC.
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Foi-se assim desenvolvendo um confronto entre Carlucci e Kissinger, que é o cerne deste livro de Bernardino Gomes e Tiago Moreira de Sá.
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Kissinger queria retirar o apoio a Portugal, tirá-lo da NATO, remetê-lo ao isolamento. Carlucci queria que se apoiassem veementemente os esforços democratizadores e enfrentou frontalmente... o seu chefe. Claro que tinha as costas quentes, i.e., o acesso directo a Rumsfeld e, portanto, ao Presidente.
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E assim o livro leva-nos a uma história de lutas políticas, manobras diplomáticas, chefias contornadas e conversas duras, entre Lisboa e Washington. Está extremamente bem documentado, resultando numa investigação académica exaustiva, de leitura agradável e cativante.
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A não perder.
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25.9.10

The spending brother

Dois irmãos concorriam à liderança do Labour Party.

David Miliband ganhou a maioria dos votos dos militantes e dos deputados, só que os sindicatos preferiram Ed Miliband e isso, no complexo sistema eleitoral do Partido Trabalhista, fez a diferença. Conjugados os três tipos de votos, Ed Miliband ganhou por uma diferença de pouco mais de 1%.

Agora está nas mãos dos sindicatos, que são dos mais retrógrados da Europa. Culpam os «ricos» de tudo e mais alguma coisa. Sonham ainda com a colectivização dos meios de produção. São os velhos defensores do “tax-and-spend”: aumentar os impostos para criar mais um subsídio, mais uma benesse.

Essa tradição “Old Labour” manteve o partido fora do governo durante quase 20 anos e, durante décadas, impediu-o de ganhar duas eleições seguidas (até surgir Tony Blair e o seu “New Labour” centrista e moderado).

São retrógados, estão errados e longe da “Middle England”. Cameron pode dormir descansado.
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17.8.10

INVICTUS

Existe o livro e existe o filme. Não apenas fisicamente, claro, mas enquanto realidades. O livro e o filme são realidades bem diferentes. Um descreve o que se passou, o outro “hollywoodiza” o que se passou. O verbo “hollywoodizar” devia existir nos dicionários há muito tempo e Invictus é um exemplo claro desse imperativo. Não significa isto que o filme, entendido tal qual é, seja um filme menor. Afinal de contas, tem Clint Eastwood como director e Morgan Freeman como actor. Tem é de ser percebido como um produto de Hollywood baseado numa história verídica, não como essa história em si.

Comecemos pelo princípio.

A história que em ambos se conta é a da equipa de râguebi sul-africana (conhecida como os Springboks) que se sagrou campeã do mundo em 1995 e, especialmente, a forma como Nelson Mandela conseguiu reunir o povo sul-africano (todo ele) em torno dessa equipa.

Assim dito, pode não parecer grande proeza. Primeiro, a África do Sul sempre teve tradição nesse desporto (aliás, viria a vencer de novo o título mundial alguns anos depois). Depois, não era propriamente a primeira vez que uma equipa nacional mobilizava as esperanças de todo um povo. Sempre que há um Mundial de futebol, todo o Brasil fica electrizado. Só que há aqui uma enorme diferença. O râguebi era o desporto favorito da minoria branca pró-apartheid. Era mesmo um símbolo dessa minoria e desse regime. A população negra nunca fora adepta do desporto, desconhecia as regras, desprezava a equipa nacional – e regozijava-se sempre que ela perdia, porque era como se o próprio apartheid perdesse. Nos anos 80 houvera uma enorme campanha mundial para bloquear a participação dos Boks em competições internacionais, que teve sucesso – e a maioria negra comemorou intensamente. Em 1995 Mandela era já presidente, mas tinha sido libertado há meros cinco anos. As eleições haviam sido apenas no ano anterior. O país e o presidente procuravam construir a reconciliação, não alienar nenhuma minoria, impedir a natural tendência para o sentimento de vingança da maioria negra em relação à minoria branca, acabar com os discursos pró-violência de extremistas brancos e negros.

Ou seja, o país vivia no fio da navalha, com qualquer episódio aparentemente menor a poder conduzir à guerra civil.

Livro e filme permitem-nos perceber perfeitamente este contexto. Obviamente, o livro dá-nos bastante mais detalhes, fornecendo uma breve história da transição do apartheid para a democracia. O filme, por limitações de tempo, não o pode fazer, mas com duas ou três cenas expressivas (a começar pela impressionante e esclarecedora cena de abertura) situa-nos rápida e eficazmente no contexto. Resumindo, livro e filme deixam claro que os Boks eram um símbolo do apartheid, aproveitado por extremistas brancos para acicatar receios e odiado pela população negra.

E aqui surge Mandela.


No livro acompanhamos a forma como Mandela, ainda na prisão, foi habilmente conhecendo os seus inimigos, conquistando a sua confiança e negociando com eles a sua libertação e a instituição da democracia, ao mesmo tempo que tranquilizava os seus correlegionários do ANC e lhes moderava progressivamente a vontade de vingança. O filme centra-se mais no período pós-eleições, em que Mandela já é presidente e, com a sua extraordinária intuição política, se apercebe rapidamente do potencial do râguebi como factor de união. Se até no râguebi o povo se unisse, então unir-se-ia mais facilmente em tudo o resto.

A partir daí vemos como Mandela o conseguiu. Não o conto, porque seria um crime para quem ainda não leu o livro nem viu o filme. Normalmente não queremos que nos contem o fim. Aqui o fim é conhecido, não convém contar é a história maravilhosa que vem antes, onde vemos o poder de uma liderança inspiradora, pacificadora e mobilizadora ao mesmo tempo. Que homem extraordinário é Mandela e como foi o homem certo no momento certo!

Portanto, deixo o recheio por contar e termino voltando às diferenças entre livro e filme. A hollywoodização da história não prejudicou a mensagem central nem a sua beleza. Continua a ser uma história extraordinária, que merece ser contada, num grande filme que merece ser visto. Um dos melhores filmes do ano, sem margem para dúvidas. Mas certas cenas simplesmente não aconteceram. Na maioria dos casos, percebe-se porque foram alteradas. Por exemplo, é mais expressivo no grande écran e mais condicente com o hollywood heroe ver Mandela fazer um discurso “inspirador” que muda a opinião de uma sala cheia de dirigentes negros do que a forma como isso se passou na realidade: Mandela falou com cada um individualmente, até os convencer. Um belo discurso é mais bonito do que a política de bastidores. Mais bonito e certamente mais nobre, na ética de hollywood. Seja como for, é um exemplo de uma alteração que não muda a substância da história.

Há apenas uma mácula. O filme centra-se numa relação especial entre Mandela e o capitão da equipa, François Pienaar. É uma estratégia bastante hollywoodesca. O mestre e o aluno. O super-herói e o fiel ajudante. O líder que convence o céptico. O homem excepcional que leva o common guy a transcender-se.

É pena. Essa relação especial entre Mandela e o capitão dos Boks existiu, mas o filme acaba por ofuscar injustamente os outros construtores da reconciliação. Na verdade, muitos outros tiveram um papel importantíssimo, desde outros jogadores até ao treinador, passando pelo manager, pelo presidente da federação, por vários dirigentes negros e, até, por extremistas progressivamente convertidos à causa de uma democracia multipartidária e multiétnica na África do Sul.

Fica, como disse, uma excelente história, contada de forma fantástica num excelente filme. Mas se querem saber a história completa, leiam o livro. É ainda melhor.

Nota: alterei temporariamente o template para condizer com este post.

8.8.06

E agora para algo completamente diferente...

No início de Fevereiro, neste blog, escrevi 4 posts sobre o Médio Oriente - nomeadamente sobre a vitória do Hamas nas eleições palestinianas -, a que chamei "O Grande Problema de Hoje", partes I, II, III e IV (tipo filme lol!). E no final desse mês escrevi um post intitulado "Hamas democrático".

Tinha muita esperança que a vitória do Hamas nas eleições palestinianas pudesse representar uma oportunidade de moderar os radicais palestinianos, agora sujeitos à pressão de ter de governar bem. Até aí, o Hamas era o movimento extremista que prometia tudo aos palestinianos: dignidade, território, fim da corrupção, administração eficiente. Em tudo isso a Fatah, partido de Yasser Arafat, falhara. Mas com tantas promessas, as expectativas dos palestinianos com a vitória do Hamas eram (e são) elevadíssimas. E o Hamas tinha agora de passar das palavras aos actos, gerindo bem a Autoridade Palestiniana. Esta pressão interna era importante, porque para bem governar a Palestina o Hamas não podia ignorar Israel ou o Ocidente, por razões logísticas e, até, financeiras (as ajudas financeiras do Ocidente eram vitais).

Para além desta pressão interna, começou igualmente a pressão externa. Europa, Estados Unidos e países islâmicos mais moderados começaram a pressionar o Hamas no sentido da moderação e da negociação com Israel.

Quem se quiser lembrar desses tempos que leia os posts que referi, do início de Fevereiro. Apenas relembro o que era a minha esperança: que essas pressões conduzissem à moderação (ou, melhor ainda, à democratização) do Hamas, um pouco como tinha sucedido à Fatah depois de assumir o governo da Autoridade (embora com muitas ambiguidades).

Para isso, eu achava que era preciso uma mistura de firmeza nos princípios e flexibilidade nas tácticas. Era fundamental que as forças externas - Ocidente, países islâmicos moderados e Israel - pressionassem o Hamas com firmeza, mas procurando evitar "romper a corda". Se aos poucos se conseguisse democratizar o Hamas, teríamos uma vitória fundamental para a melhoria do problema. Os palestinianos poderiam porventura começar a descobrir que não era pela via radical que algum dia chegariam a bom porto - Fatah e Hamas teriam abandonado essa via, em momentos diferentes, com protagonistas diferentes. Enfim, não esperava milagres, mas certamente tinha esperança em melhorias muito significativas.

Os primeiros tempos pareciam indicar que essas forças externas estavam no bom caminho, como escrevi no post Hamas democrático. A União Europeia ameaçou cortar as ajudas, os EUA decidiram esperar para ver. Ambos disseram que não estava em causa a ajuda ao povo palestiniano, mas que ela dependia do caminho que o Hamas quisesse trilhar. Havia firmeza (excepto o patético Freitas do Amaral, com topete e tudo), mas abertura suficiente para manter soluções em cima da mesa.

E a que propósito vem tudo isto? Vem a propósito do ataque israelita ao Hezbollah e ao Líbano.

Este ataque vem deitar por terra a minha esperança, por muitos e bons anos. Compreendo o drama de Israel. Não gostaria de ver terroristas fanáticos ao longo do lado de lá do Rio Minho a raptar portugueses nos arredores de Valença, a lançar rockets sobre Viana do Castelo ou a instruir bombistas suicidas para atacarem um autocarro dos STCP no coração do Porto.

Compreendo. E compreendo que invadir o sul do Líbano pode parecer a solução. E talvez o seja, a curto prazo. Mas a longo prazo apenas vai contribuir para o escalar do conflito. Entrámos numa nova espiral de ataque e contra-ataque, que duvido venha a terminar com os pesadelos de Israel.

Não sei se podíamos pedir a Israel que aguentasse e procurasse um pouco mais a negociação. Não sei se o totalitarismo islâmico algum dia deixará de existir. Não sei se o Hamas ou o Hezbollah algum dia serão movimentos pró-liberdade. Mas sei que não o saberei tão cedo.

14.3.06

E esta violência, também é compreensível?

"O norte-americano Tom Fox, que se encontrava entre quatro activistas da paz raptados no ano passado no Iraque, foi quinta-feira encontrado morto no bairro de Mansour, em Bagdad, anunciou ontem a polícia. Segundo as autoridades, existem indícios de que teria sido espancado e torturado antes de ter sido assassinado a tiro."
in Público online, 12.03.2006

27.2.06

Hamas democrático

Há uns tempos (sobretudo na parte III do post O Grande Problema de hoje) defendi que, por paradoxal que pudesse parecer, a vitória do Hamas poderia ser uma grande vitória da Democracia sobre o terrorismo. E isso devido à realpolitik das pressões internas e externas para a institucionalização e moderação do movimento.
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Internamente, os palestinianos puniram nas eleições a Fatah, a sua corrupção, a sua incapacidade para resolver os problemas. Em consequência, esperam do Hamas, que sempre se assumiu como moralmente superior, a melhoria da Administração Pública, o desenvolvimento, a liberdade, a segurança, o orgulho e a dignidade. Não é pouco!
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Por isso precisa de todo o apoio que conseguir. Financeiro mas também político, muçulmano mas também "infiel". Ora externamente as pressões norte-americanas e europeias têm sido no sentido do Hamas aceitar as regras do jogo democrático (estas foram as primeiras eleições em que participou, salvo erro), moderar as suas posições, repensar a aceitação do direito à existência de Israel. Numa palavra, democratizar-se.
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A verdade é que a evolução tem sido nesse sentido:
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«O designado primeiro-ministro palestiniano, Ismail Haniya, afirmou numa entrevista ontem publicada pelo diário norte-americano Washington Post que o Hamas considera uma "paz em estádios" caso Israel retire para as fronteiras de 1967. Esta paz em estádios, explicou, seria uma "trégua de longo termo", já antes prometida pelo líder espiritual do movimento, o xeque Ahmed Yassin. Quando questionado pela jornalista do Post e da Newsweek sobre se esta paz significaria a eliminação do povo judeu, Hanyia respondeu: "Não queremos atirá-los para o mar. Queremos a nossa terra de volta".
[...] Ainda ontem, os Estados Unidos afirmaram que não vão cortar na ajuda humanitária aos palestinianos.A promessa foi feita pelo responsável do Departamento de Estado David Welch, num encontro com o presidente da Autoridade Palestiniana, Mahmoud Abbas. Os Estados Unidos "são há muito um apoiante do povo palestiniano (...) e continuarão a apoiar o povo palestiniano nas suas necessidades humanitárias", garantiu Welch. Abbas aproveitou, por seu lado, para apelar à comunidade internacional para que não isole o Hamas, elogiando o escolhido pelo movimento para o cargo de primeiro-ministro, um pessoa "flexível e diplomática". "Eles vão ouvir muitas coisas que os farão pensar na sua posição política".
In Público, 27.02.2006
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Obviamente que tal não será fácil. O Ocidente tem de gerir um equilíbrio delicado entre firmeza convicta e flexilidade inteligente. Mas parece-me que isso tem sido conseguido (excluo o nosso Governo infra-chamberlainiano, a que já me referi na parte IV do tal post) . E se for um êxito, será um enorme êxito.

15.2.06

T-shirts

«O ministro das Reformas do Governo italiano, Roberto Calderoli, mandou fazer "t-shirts" com reproduções das polémicas caricaturas sobre Maomé publicadas por alguns jornais europeus.

"Mandei confeccionar 't-shirts' com as caricaturas contestadas pelo Islão e vou usá-las a partir de hoje", afirmou Calderoli em declarações à agência noticiosa italiana Ansa.O governante faz parte da Liga do Norte, partido que integra a coligação governamental do Executivo presidido por Silvio Berlusconi e que é conhecido pelas suas tomadas de posição xenófobas. "Estou pronto para oferecê-las a quem as pedir", acrescentou Calderoli, recusando que o seu gesto possa ser entendido como uma provocação.
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"É preciso acabar com esta fábula de que é necessário dialogar com estas pessoas. Querem humilhar-nos. É tudo", afirmou o governante. [...]
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"É necessário pôr fim a esta tendência de baixar as calças e às distinções hipócritas entre Islão terrorista e Islão pacífico", concluiu Calderoli.»


in Público online, 15.02.2006

No post O grande problema de hoje - parte IV disse que o Ocidente devia usar firmeza e inteligência. Adivinhem o que falta aqui...

11.2.06

I rest my case

«Seis das doze caricaturas do profeta Maomé foram publicadas no Egipto, em Outubro, sem levantar a menor polémica, afirmou ontem o embaixador dinamarquês no Cairo. A reacção surgiu dois meses depois, quando os líderes muçulmanos reunidos num encontro da Organização da Conferência Islâmica (OCI) coordenaram estratégias e "cristalizaram" a crise, revelou o jornal The New York Times. Só então a revolta começou a sair à rua, com o apoio de vários governos.
[...]
Esta informação ajuda a sustentar a tese de que existe uma forte manipulação política por detrás das manifestações a que se tem vindo a assistir em vários países.
[...]
Para Sari Hanafi, da Universidade Americana de Beirute, os regimes árabes que estavam ressentidos com a pressão ocidental de democratização viram aqui uma oportunidade. As manifestações que se seguiram "desencadearam uma reacção visceral - claro que se sentiram ofendidos - e depois tínhamos regimes a tirar partido, a dizer: "Vejam, é desta democracia que eles falam"", comentou.»

In Público online, hoje.

10.2.06

O grande problema de hoje - parte IV

Nem de propósito, o tipo de reacção que o Ocidente deve adoptar face ao extremismo islâmico tem estado em cima da mesa nos últimos dias.

A questão dos cartoons dinamarqueses liga-se, claro, à do Hamas, porque refere-se à posição dos ocidentais face ao extremismo e ao terrorismo religiosos.

E para mim a posição só pode ser uma: firmeza inteligente. Firmeza nos princípios fundamentais, inteligência na definição táctica.

A firmeza nos princípios fundamentais é imprescindível. Não podemos sacrificar as nossas liberdades à segurança (ou melhor, à ameaça do seu fim às mãos do terrorismo). Não podemos, muito menos, envergonharmo-nos delas. A Dinamarca é dos países mais tolerantes do mundo, que aceita a diferença e respeita a opinião contrária, que protege os desfavorecidos e acolhe os imigrantes, que acredita na liberdade de expressão e rejeita a ingerência do poder político nas esferas que lhe estão proibidas na Lei, que protege o indivíduo face ao abuso dos colectivos e rejeita o totalitarismo, tudo conforme as normas básicas de um Estado de Direito que se orgulha ser. E que todos nos devemos orgulhar de apoiar.

A Dinamarca é a liberdade. Imperfeita, melhorável, mas a liberdade. E a dignidade da pessoa humana.

Ora, o que são os extremistas? Sem rodeios: são o Totalitarismo, a mundividência cuja afirmação exige a negação das demais mundividências, a verdade única de auto-proclamada “vanguarda moral” do povo islâmico.

Naturalmente, o confronto com tal totalitarismo assusta-nos. Já teve etapas sangrentas. Queremos evitá-lo. Esperamos evitá-lo.

O problema é que o confronto interessa aos extremistas. O pior que pode acontecer aos extremistas é a dita normalidade democrática. Eles vivem do ódio e da turbulência, não do respeito democrático nem da tranquilidade. E por isso agitarão as massas sempre que se sentirem ameaçados.

Ora, o AKP rejeitou o extremismo na Turquia depois de ter chegado ao poder, a Fatah rejeitou o extremismo na Palestina depois de ter chegado ao poder, o Hamas começou já a ser pressionado (interna e externamente, como referi na parte III) a seguir idêntico caminho. No Afeganistão e no Iraque houve eleições democráticas. E também no Egipto e na Arábia Saudita (onde não houve invasão americana). No Líbano renasce a esperança.

Estas são boas notícias para nós – mas péssimas para os extremistas. É aqui, portanto, que vamos ser postos à prova. Nisto:

- Mantermo-nos firmes na defesa dos nossos valores de liberdade, democracia e dignidade da pessoa humana;
- Persistir nos esforços de democratização, estabilização e desenvolvimento do Médio Oriente, com a inteligência táctica de aceitar vitórias parciais mas progressivas em direcção ao objectivo final ;
- Pressionar israelitas e palestinianos para um acordo, aplaudindo cada sucesso, tendo cuidado para não vexar nem humilhar, pressionando para o evitamento de conflitos, lembrando a pressão e a esperança dos respectivos povos e do mundo.

No caso concreto dos cartoons, é preciso portanto que:

- Se repudie toda a violência resultante;
- Se rejeite como possível solução a ingerência de um governo na delimitação directa da liberdade de expressão, à margem do estipulado prévia e taxativamente na Lei;
- Se admita que os cartoons são de mau-gosto e susceptíveis de ofender os muçulmanos;
- Se afirme, no entanto, que o reconhecimento da liberdade passa, justamente, por respeitar aquilo com o qual à partida não concordamos.
- Voltando ao início, se insista que estas são as formas de organização das nossas sociedades pelas quais nos regemos e nos continuaremos a reger.

Firmeza nos princípios, inteligência nas tácticas. O nosso Ministro dos Negócios Estrangeiros não percebeu nem uma nem outra. Pior, subverteu-as. No que deveria ser firme, foi abaixo de mole – foi omisso, inexistente. Não ter feito uma única referência à inaceitável violência dos extremistas é imperdoável. No que deveria ser inteligente, jogando com as margens tácticas para cumprir a estratégia principal, foi inepto – enveredou por um suposto apaziguamento que soou inevitavelmente a cedência, sem sequer a mínima contracedência da outra parte. Foi Chamberlain sem sequer a aparência de Munique.

8.2.06

O grande problema de hoje - parte III

Como pode a vitória do Hamas conduzir a uma vitória da Democracia sobre o terrorismo?

Real politik: o exercício do poder obrigará o Hamas a lidar com as pressões internas e externas. O que ocorrerá pela primeira vez (pormenor importante).

As pressões internas serão no sentido do milagre. Os palestinianos querem mais, muito mais, do que aquilo que têm neste momento. Querem paz, desenvolvimento, fim da corrupção. Mas também território, orgulho, dignidade. A Fatah falhou em todos estes campos. É claro que Israel não ajudou propriamente a Autoridade Palestiniana e a Fatah (muro de divisão, atentados a dirigentes radicais - por vezes atingindo inocentes -, constrangimentos económicos, etc), mas colocar-se-á sempre a questão do ovo e da galinha: quem "nasceu" primeiro, os atentados de radicais palestinianos ou os atentados israelitas?

Independentemente disso, a Fatah, aos olhos palestinianos, falhou. A vitória do Hamas, portanto, é uma vitória de uma imensa esperança. Do Hamas, como disse, os palestinianos esperam o milagre. Que, de resto, lhes foi prometido pelo Hamas.

No plano externo, claro está, as pressões serão no sentido da paz. Este objectivo, no entanto, é bastante genérico. Há vários tipos possíveis de paz. O Hamas diz que quer a paz - só que para o Hamas a paz implica o fim de Israel, com a região apenas para os muçulmanos. E Israel também quer a paz, mas mantendo a existência com o máximo possível de território. Em que sentido pode a comunidade internacional pressionar? Pode escolher um modelo de paz e pressionar as partes no sentido da sua aceitação? Ou deve limitar-se a promover negociações e esperar que as partes cheguem a acordo? Porventura começar por este último e, durante o processo, procurar mudar para o primeiro, como tem sido tradição.

A verdade é que estas pressões internas e externas serão uma novidade para o Hamas. E, para mim, vão interligar-se e interdepender-se.

De facto, o sucesso do Hamas em cumprir as esperanças internas depende da relação com Israel e com a comunidade internacional. Por exemplo, nas primeiras declarações do Hamas após a ameaça da UE em pôr fim à ajuda financeira que neste momento presta à Autoridade Palestiniana, os seus dirigentes desdenharam tal ajuda, por ser pouco importante e por poder ser colmatada com ajuda dos países islâmicos. Mas não rejeitaram a ajuda europeia, apenas disseram algo como "se quiserem, retirem-na". E não rejeitaram porque sabem que ela é importante para a economia palestiniana e que dificilmente os países islâmicos poderiam compensar a sua perda. Jogam, portanto, no bluff - mas estarão certamente preocupados devido às tais pressões internas para o desenvolvimento económico.

No fundo, a minha tese é esta: para responder às aspirações internas, o Hamas terá que ser realista no relacionamento com Israel e com o Ocidente. Como o foi a Fatah. Convém não esquecer que a Fatah já foi tão radical e terrorista como o Hamas. Mas, com o decurso das negociações, foi moderando o discurso e a acção (com ambiguidades em ambos, diz Israel).

A esperança é esta: que também o Hamas faça caminho idêntico. Como disse na parte II, o Hamas não é um conjunto de barbudos terroristas ignorantes. São extremistas, mas contam entre si académicos e intelectuais (nota: se a nós isto parece contraditório, lembremo-nos do fascínio que o totalitarismo comunista exerceu sobre tantos intelectuais ocidentais).
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Daí a vitória possível da Democracia sobre o extremismo islâmico: se o Hamas começar a moderar as suas posições, a trabalhar para a paz e o desenvolvimento, a abrir-se para o mundo, continuando a aceitar o jogo democrático na Palestina (o que é recente, visto que inicialmente recusou participar em eleições para uma Autoridade que considera insuficiente), então a Democracia terá vencido esta pequena mas porventura decisiva batalha.

Àqueles que neste momento me consideram lírico ou ingénuo, relembro as declarações de alguns dirigentes do Hamas após as primeiras reacções internacionais. A própria admissão de umas tréguas com Israel é já uma primeira cedência. Ou pelo menos moderação. As tréguas servirão para negociar, pública ou secretamente. O que é um primeiro passo.

A posição dos ocidentais nesta matéria é fundamental. Porque dela poderá resultar o desfecho. A ela me referirei no próximo post.

4.2.06

O grande problema de hoje - parte II

Na parte I procurei falar um pouco dos antecedentes da criação do Estado de Israel. Não vale a pena descrever todo o conflito israelo-árabe a partir daí. Basta referir:
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- Resolução das Nações Unidas de 1947 acaba com o Mandato Britânico e cria dois Estados, um israelita e outro palestiniano, ficando Jerusalém sob administração da ONU.
- Os judeus aceitam a Resolução e proclamam a Independência. Os palestinianos e os países árabes vizinhos recusam. Tropas libanesas, sírias, jordanas, iraquianas e egípcias invadem Israel (Guerra de 1948-49). Israel ganha a guerra e assina um armistício com os vizinhos.
- Novas guerras, ganhas pelos israelitas: Guerra dos Seis Dias (1967) e Guerra do Yom Kippur (1973).
- Acordo de Paz Israel-Egipto (1979), assinado pelo Presidente egípcio Sadat e pelo Primeiro-Ministro israelita Begin, que levou a uma visita oficial de Sadat a Israel. Sadat viria a ser assassinado em 1981, em parte devido à "traição" de estabelecer a paz com o Estado judaico e de o visitar.
- Intifada (1987-91 e 2000-2005): revoltas de rua levadas a cabo pelos palestinianos (cocktails molotov, arremesso de pedras, pneus queimados) como forma de resistência à ocupação israelita.
- Processo de paz - desde 1991, ocorrem periodicamente conversações entre israelitas e palestinianos. O primeiro acordo de relevo foi assinado em 1995 e levou à criação de uma Autoridade Palestiniana na Margem Ocidental e na Faixa de Gaza. De então para cá, o processo de paz tem conhecido avanços e retrocessos, em grande parte devido às desconfianças israelitas face às reais intenções dos palestinianos e ao seu real empenho em terminar com o terrorismo.
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E chegamos ao primeiro ponto onde eu queria chegar: a vitória do Hamas nas últimas eleições palestinianas.
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É para muitos estranho como o Hamas, partido radical e terrorista (ou próximo disso) venceu a Fatah (mais moderada e favorável ao processo de paz). Alguns não acharão estranho mas até natural, dado que se verificou na Palestina.
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No entanto, convém esclarecer que a situação da Autoridade Palestiniana estava longe de ser famosa: corrupção, excesso de recrutamento de pessoal, incapacidade para organizar e dinamizar a economia. Os palestinianos estavam fartos de uma Fatah que se mostrou incapaz de dar a paz ou o progresso. Corrupta e ineficaz. Logo, derrotada.
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Ora convém esclarecer também que o Hamas não é apenas um bando de barbudos terroristas: há no Hamas intelectuais e religiosos com elevado nível de erudição (se me permitem, são semelhantes aos intelectuais europeus de esquerda radical dos anos 60 e 70 - inteligentes mas fundamentalistas).
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Tudo misturado, não espanta que o Hamas tenha vencido.
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E quando tudo parece negro... eu encontro a maior das razões para a esperança. E não de um modo lírico, mas de um modo politicamente realista.
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E a esperança é esta: a vitória do Hamas pode conduzir a uma grande vitória da Democracia sobre o terrorismo (quiçá a primeira grande vitória).
(Continua)

O grande problema de hoje - parte I

Vou escrever aqui um conjunto de textos que fariam mais sentido no outro blog em que escrevo, o Arquipélago dos Gladiadores, mais dedicado às questões políticas. Mas vai ser aqui mesmo, por dois motivos: primeiro, os gladiadores nos próximos tempos vão estar ocupados com o tema da regionalização; segundo, o que vou escrever aqui não é apenas político - é humano, demasiado humano.
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O grande problema a que me refiro é o de Israel. Ou, melhor dito, o da Palestina. Acho que já é altura de escrever umas coisas sobre o assunto, que é um dos mais determinantes para o nosso futuro.
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Sem a resolução deste conflito, que abarca a questão de Jerusalém (cidade santa para ambos os lados do conflito e, ainda, para os cristãos), não poderemos evoluir muito no combate ao terrorismo. O conflito existente e a situação de Jerusalém são duas "fontes" de terroristas. Enquanto não se resolverem, os terroristas continuarão a emergir por todo o mundo islâmico.
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Por vezes há a tentação para descrever um quadro simplista na origem deste conflito: os judeus foram vitimizados na 2ª Guerra Mundial; os europeus e americanos sentiram-se mal com a perseguição que ao longo de séculos lhes moveram e que culminou com o Holocausto; o Ocidente "oferece" aos judeus um território na Palestina no final dessa guerra.
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Ora não foi bem assim.
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Nota Histórica
Já em 1862 Moisés Hess defendeu a ida dos judeus para a Palestina (foi um dos fundadores do socialismo sionista, que viria a inspirar vagamente os kibbutz e que me despetou o interesse por toda esta história). Mas a primeira grande migração de Judeus para a Palestina dá-se em 1882, quando judeus russos perseguidos nos terríveis "pogroms" de 1880-82 emigram para essa região. Foi a 1ª Aliyah ("ascensão", que é como os judeus chamam à migração para Israel).
Em 1883, Nataniel Birnbaum funda a Khadima, uma associação de estudantes judeus de Viena, Áustria. No ano seguinte, 1884, publica “Auto-Emancipação”, outro marco do movimento. É ele um dos grandes divulgadores do sionismo, o movimento que defende a instauração de um Estado judaico na Palestina.
Em 1890, os judeus representam cerca de 5% da população da Palestina (25.000 em 520.000).
O caso Dreyfus, em França, incrementou o movimento e, em 1897, é realizado o primeiro Congresso Sionista em Basileia, na Suíça, organizado por Birnbaum e por Teodoro Herzl.
Daí em diante o Congresso Sionista passou a reunir uma vez por ano. O movimento chegou a ponderar estabelecer-se noutros locais que não a Palestina (por exemplo, um território africano a ceder por alguma potência colonial europeia). No entanto, no 7º Congresso (1905) a maioria pronunciou-se contra essa hipótese, tendo apontado a Palestina como o seu único objectivo daí em diante. Desde 1905...
Em 1917, durante a 1ª GM, o Ministro dos Negócios Estrangeiros britânico (Arthur Balfour) promete aos judeus o estabelecimento na Palestina de um lar nacional (national home), embora respeitando os direitos dos cidadãos não judeus habitantes na região. Os motivos dessa promessa são alvo de especulação: desde procurar apoio nos Estados Unidos para a causa aliada até irritar o Império Otomano (que era aliado dos alemães e ocupava a Palestina), passando pela angariação de apoio entre judeus abastados para o esforço de guerra britânico, várias têm sido as explicações avançadas (provavelmente todas têm algo de verdadeiro). Embora considerada como um primeiro passo, a Declaração Balfour, como ficou conhecida, era prudente: falava em lar nacional (e não em Estado ou país).
Com o fim da 1ª GM e a derrota do Império Otomano, aliado dos alemães, a Palestina fica sob mandato britânico (British Mandate), de acordo com resolução da Liga das Nações.
A imigração judaica para a zona não pára de aumentar. Em 1922 a população judaica já ultrapassa a cristã (muçulmanos: 528.200 – 77%; judeus: 83.800 – 12%; cristãos: 71.500 – 10%). Em 1925 é criada a Universidade Hebraica de Jerusalém. Em 1936 a Comissão Peel (comissão britânica para decidir o que fazer na região) propõe a criação de um Estado judaico e de um Estado árabe, possivelmente adstrito à Jordânia. Judeus e árabes rejeitam o plano. A Comissão Woodhead, nomeada em 1938, propõe um Estado israelita mínimo (uma pequena faixa costeira com menos de 20 km de largura, representando apenas 5% da Palestina), um Estado árabe e o restante território, incluindo Jerusalém, permanecendo sob mandato britânico. Essa proposta é também rejeitada, sobretudo pelos judeus. Em 1936-38 há violentas insurreições muçulmanas contra a imigração judaica. Os britânicos lançam em 1939 um Livro Branco sobre a questão e restringem bastante essa imigração.
Portanto, o problema de Israel não surge apenas no fim da 2ª GM. Na década de 1930 já muitos milhares de judeus se encontravam na Palestina, sendo já cerca de metade da população em 1945. Desde 1905 que a Palestina era o objectivo único dos sionistas e em 1945 estavam muito perto de o conseguir. Ou seja, dificilmente aceitariam outra solução, na Europa ou noutro continente.
Aliás, nessa época não lhes foi “dado” um território, foi reivindicado e conquistado por meios violentos, face aos britânicos e face aos vizinhos árabes. Esse é um erro comum em Portugal, dizer que os ocidentais deram um território aos judeus após a 2ª GM. Na verdade, desde a década de 30 que os judeus pressionavam fortemente os britânicos, num clima de quase-guerra de independência em que se destacava a Haganah - que significa A Defesa -, milícia que procurava defender de (e, dizem alguns, atacar a) britânicos e árabes, o que levou ao tal Livro Branco de 1939. Não quero com isto dizer que concordo nem que não concordo com a criação do Estado de Israel (lá chegarei mais à frente), mas apenas frisar que a sua história não começa em 1945 e que a sua criação não foi uma mera benesse dos países ocidentais. Os judeus estavam preparados para combater pela independência se as Nações Unidas não tivessem aprovado o Plano de Partilha de 1947! E provavelmente teriam ganho essa guerra face aos britânicos, como a ganharam no ano seguinte face aos árabes.
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O que acho da existência do Estado de Israel? Se estivéssemos em 1890, a minha resposta seria fácil: o sionismo não é aceitável. Ocupar progressivamente um território de outrém com o objectivo de o dominar não é aceitável. No entanto, desde os anos 30 que a única solução possível é a da existência de dois Estados. Esperemos que não demore muito porque quanto mais demorar, mais a região e o mundo sofrerão com isso. (Continua)

4.12.05

Tornei-me gladiador

A partir de agora, este blog terá menos posts sobre política, porque comecei a escrever no blog Arquipélago dos Gladiadores, onde passarei a escrever os comentários políticos. Assim, este blog fica mais pessoal (embora não deixe completamente de ter notas políticas, porque elas por vezes também são pessoais).

9.11.05

JPP sobre a França

No Abrupto, anteontem:

«Num artigo de hoje do Libération , que se queixa de que o “Estado abandonou os bairros sociais (as “Cités”)”, percebem-se três coisas:

a enorme rede de subsídios e financiamentos estatais típicos do “modelo social europeu”. O artigo cita a crise das acções de alfabetização, financiamentos do Fasild (antigo Fundo de Acção Social), acções de prevenção com adolescentes, programa de empregos-jovem, acções com mulheres, associações subsidiadas (o exemplo é uma intitulada Sable d’Or Mediterranée) que fazem acções de inserção, acolhimento dos recém emigrados, acesso à cultura, teatro de adultos, iniciação ao cinema, vários projectos artísticos e culturais, etc., etc.;

a enorme quantidade de pessoas que trabalha nestes programas, associações, ONGs, que são elas próprias um grupo de pressão para o aumento dos subsídios e o alargamento dos apoios estatais, e que, não é por acaso, aparecem nesta crise como as principais vozes “justificando” a “revolta dos jovens”;

e, por último, o enorme contraste entre o modo europeu de “receber” e integrar os emigrantes envolvendo-os em subsídios e apoios, centrado no estado e no orçamento, hoje naturalmente em crise; e o modo americano que vive acima de tudo do dinamismo da sociedade que lhes dá oportunidades de emprego e ascensão social.»

7.11.05

No meio da loucura, ainda há esperança

O rapaz palestiniano de 12 anos que foi atingido por soldados israelitas quando segurava uma arma de brinquedo na mão não sobreviveu à gravidade dos ferimentos e a família anunciou anteontem a sua morte.

Onde está a esperança? É que a família do rapaz anunciou também que irá doar os seus órgãos, não se importando se serão transplantados para criança(s) judias ou palestinianas. Uma lição para radicais de ambos os lados.

9.9.05

PobrezaZero



Segunda semana da Banda Branca - 9 a 16 de Setembro de 2005

Amanhã, dia 9, à meia-noite, 75 países vão despertar os seus governantes para a luta global contra a pobreza. Vamos acordar também o nosso Primeiro-Ministro. Vem à concentração junto ao Palácio de S. Bento, a partir das 23h00, e traz o teu despertador. Junta-te a nós e participa.

Desperta para a Luta Contra a Pobreza!
Adere à campanha em www.pobrezazero.org